Contra o golpe de Estado e a ruptura democrática na Bolívia

 Contra o golpe de Estado e a ruptura democrática na Bolívia

Os membros da Rede BLAC (Rede Brasileira de Pesquisadores da América Latina e do Caribe) expressam seu mais veemente repúdio ao golpe de Estado perpetrado na Bolívia pelas Forças Armadas e pela polícia, que culminou na renúncia do presidente Evo Morales Ayma e do vice-presidente Álvaro García Linera, no domingo, 10 de novembro, seguida pelas renúncias das presidências das Câmaras e do Senado, bem como de seus respectivos cargos de liderança em áreas estratégicas do governo.

Caso haja evidências de fraude nas eleições presidenciais na Bolívia por parte de observadores internacionais confiáveis ​​(o que suspeitamos ser o caso da Organização dos Estados Americanos – OEA), novas eleições devem ser convocadas, conduzidas por um órgão eleitoral renovado.

No entanto, optamos pela ruptura institucional e pela imposição de um quadro de barbárie, através da violência contra cidades bolivianas, do saque e incêndio de prédios governamentais e residências de parlamentares, incluindo duas do próprio presidente e de sua família, e, finalmente, pelo ultimato militar que forçou a renúncia de Evo Morales.

Ainda assim, há ondas de ataques, prisões e atos de vandalismo contra o patrimônio público e a propriedade privada em diversas localidades, com vários mortos e centenas de feridos ainda sendo registrados. Além disso, os parlamentares que apoiam o governo Morales, em ambas as casas legislativas, estão sob pressão para também renunciar.

É flagrante e execrável o protagonismo da oposição ao governo Morales nesse contexto, apoiado por uma articulação internacional de direita capilarizada na região, apesar da concordância desta em acatar a recomendação da OEA de convocar novas eleições.

Os objetivos do golpe na Bolívia devem ser denunciados incansavelmente, desde a incitação à desordem social e à desestabilização institucional até a completa deposição do governo Morales e o contínuo desmantelamento do projeto político-econômico, social e cultural proposto pelo Estado Plurinacional, concebido na vanguarda da contra-hegemonia global, como já é amplamente reconhecido. É importante destacar a incontestável motivação econômica do golpe: o controle de dois recursos minerais no país, especialmente o lítio.

Comemorado por diversos episódios de violência contra cidadãos bolivianos e suas famílias, o jantar de destruição e incêndio de Wiphala, transmitido pela internet, simboliza brutalmente o elitismo e o racismo que motivam o golpe em curso na Bolívia. Desde a sua criação, há dez anos, a bandeira do Estado Plurinacional tem sido condenada pelas elites bolivianas, insatisfeitas com o empoderamento e a emancipação da população indígena e dos trabalhadores no país, bem como com os limites do neoliberalismo e do subimperialismo estabelecidos pelo governo Morales e suas alianças regionais em prol de uma integração alternativa e soberana na América Latina e no Caribe.

Unamo-nos às inúmeras manifestações no Brasil, em outros países da América Latina e em várias partes do mundo para rejeitar a terrível escalada de ódio, perseguição e violência desencadeada nas últimas semanas, especialmente contra líderes sociais e sindicais, povos indígenas, militantes do Movimento Socialista (MAS), estudantes, profissionais da área gráfica, da saúde e da ajuda humanitária, e representantes internacionais.

Encorajamos nossos colegas das redes e associações nacionais e internacionais a demonstrarem solidariedade com a firme e corajosa resistência popular ao golpe racista e fascista em curso na Bolívia, liderado por povos indígenas e trabalhadores, especialmente em El Alto e Cochabamba.

Instamos nossos colegas a defenderem o retorno imediato à democracia na Bolívia, por meio do resgate dos canais institucionais e do diálogo, com vistas à realização de eleições democráticas, garantindo a participação de todos os setores sociais e políticos do país e monitorando o processo entre os mais diversos setores da comunidade internacional.

Brasil, 13 de novembro de 2019

Profa. Adélia Miglievich-Ribeiro (UFES)
Prof. Bernardo Mançano (UNESP, comitê gestor do CLACSO) Prof. Bernardo Salgado Rodrigues (UFRJ)
Prof. Breno Bringel (UERJ)
Prof. Carlos Alberto Steil (UFRGS)
Prof. Carlos Eduardo Martins (PEPI/UFRJ)
Prof. César Barreira (UFCE)
Professora Danilla Alencar (UFRN)
Prof. Fabrício Pereira da Silva (UNIRIO)
Profa. Flávia Lessa de Barros (UnB, comitê gestor da ALAS) Prof. Gustavo Lins Ribeiro (UnB)
Prof. Irlys Alencar F. Barreira (UFCE)
Prof. Janssen Felipe Silva (UFPE)
Professora Joana A Coutinho (UFMA)
Prof. Joanildo Burity (FUNDAJ)
Prof. João Colares da Mota Neto (UEPA)
Prof. José Vicente Tavares (UFRGS)
Professora Lília Tavolaro (UnB)
Profa. Maíra Baumgarten (UFRGS)
Prof. Marcos Costa Lima (UFPE)
Profª Mônica Martins (UECE, comitê gestor do CLACSO) Prof. Paulo Henrique Martins (UFPE)
Prof. Raphael Seabra (UnB)
Profa. Renata Peixoto de Oliveira (UNILA)
Prof. Sedi Hirano (USP)
Professora Vivian Urquidi (USP)
Prof. Wagner Romão (Unicamp)



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