Conservação e ancestralidade: uma perspectiva intercultural sobre a gestão de territórios

 Conservação e ancestralidade: uma perspectiva intercultural sobre a gestão de territórios


Seminário 2419

Coordenação: Pamela Esther Degele (CONICET – UNPA – UTB, Argentina); Mirta Fabiana Millán (UnMa, Argentina)

Início: 10/10/2024 | Inscrição: 20/05/2024 a 09/10/2024

Carga horária: 12 semanas – 90 horas.


A exploração, transformação e degradação da natureza, evidentes em fenômenos como a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas, constituem um dos problemas mais prementes do mundo contemporâneo. Na América Latina, caracterizada por uma crescente diversidade cultural e natural, bem como por um histórico agressivo de extrativismo, desigualdade econômica e racismo, essa questão assume importância primordial. Os povos indígenas e as comunidades locais em todo o continente, em particular, expressam um claro compromisso com a preservação, o planejamento e a gestão sustentável a partir de perspectivas inovadoras e alternativas às normas hegemônicas. Esse compromisso está diretamente ligado ao combate à violência em seus territórios, bem como à proteção simultânea dos direitos humanos e dos direitos da natureza. Portanto, é urgente gerar conhecimento a partir de uma perspectiva intercultural que permita a inclusão dessas vozes silenciadas nos debates e políticas públicas atuais, contribuindo para uma maior justiça. O curso, portanto, visa fornecer ferramentas teóricas a partir de uma perspectiva intercultural para fomentar uma análise epistêmica abrangente da conservação e gestão de territórios, possibilitando o desenvolvimento de futuros trabalhos acadêmicos e/ou práticas profissionais críticas que reflitam essa realidade diversa. 

O problema generalizado e progressivo da exploração, transformação e degradação da natureza na América Latina encontra-se em estreita ligação com um padrão histórico na região de subjugação do direitos das pessoas e culturas, num contexto de interesses económicos e forças políticas dominantes, diferentes do bem comum, que determinam as condições de Extrativismo e injustiças territoriais na região. Esses processos são evidentes nos diversos movimentos de resistência que surgiram nas últimas décadas, com um crescente protagonismo de populações indígenas e camponesas, e de mulheres, que apresentam uma postura contra-hegemônica, ao expressarem a necessidade de uma ruptura com a hegemonia dominante. padrões culturais ocidentais dominantes (e suas consequências, como o extrativismo), assumindo uma práxis emancipadora. Como alternativa, a abordagem do “bem viver” está emergindo com força na América Latina, um modelo territorial e de estilo de vida alternativo enraizado em uma cosmovisão indígena andina e, portanto, não ocidental e não capitalista. Essa abordagem, longe de ser uma proposta teórica, homogênea e acabada, adquire grande valor por se construir sobre o encontro de experiências e saberes de povos que habitam o continente há milênios e que também foram silenciados e submetidos à violência por muito tempo. 

Uma das inovações mais significativas dessa abordagem é a ruptura com a visão de mundo antropocêntrica, compreendendo o humano e o não humano em termos relacionais, como uma “comunidade política”. Assim, a partir dessas visões de mundo ancestrais, a natureza é um conceito relacional que fundamenta a identidade cultural e territorial e a autonomia das populações. Além disso, transcende-se a ideia de sua dominação e instrumentalização, transformando-a em um “sujeito de direitos”. Essa mudança de perspectiva é considerada fundamental para promover melhorias na Cuidado e proteção da diversidade natural e cultural na região. Assim, este curso visa avançar rumo a uma interpretação intercultural da gestão e conservação da natureza, em contraste com o discurso biológico hegemônico que busca ser despolitizado e que serve ao modelo de desenvolvimento sustentável, atualmente sob pressão. É amplamente comprovado que o atual paradigma internacional de conservação, por meio de seu principal instrumento, as áreas naturais protegidas, apresenta inúmeras dificuldades para alcançar seus objetivos. Por exemplo, a tendência de ignorar os usos e concepções tradicionais do território onde a conservação é planejada gerou situações de deslocamento e imposição, criando conflitos e injustiças que exigem uma reformulação do modelo. 

O curso oferece elementos para reflexão a partir da perspectiva do pós-desenvolvimento, considerando que, para alcançar um território sustentável e justo, é necessário transcender para uma racionalidade intercultural plural, que respeite simultaneamente os direitos da natureza e das culturas locais, bem como reconheça a ligação entre corpo, biodiversidade, território, gênero, espiritualidade, autodeterminação e reprodução da identidade dos povos; em termos práticos, que priorize esses aspectos na gestão e conservação territorial, que até agora têm sido pouco reconhecidos e subjugados a interesses econômicos, gerando inúmeros problemas sociais e ambientais. 

Objetivo geral: 

- Proporcionar uma perspectiva analítica e investigativa sobre a interculturalidade como um paradigma emergente na América Latina em relação à gestão e conservação de territórios. 

Objetivos específicos: 

- Fornecer ferramentas teóricas que beneficiem o conhecimento e a contribuição acadêmica/profissional na conservação e gestão territorial com abordagens epistemológicas alternativas. 

- Proporcionar aos participantes uma bibliografia útil sobre perspectivas interculturais e novos paradigmas de conservação. - Promover uma reflexão coletiva sobre a importância da perspectiva intercultural em relação às políticas de conservação internacionais e nacionais dos últimos 10 anos. 

-Divulgar, discutir e aprender sobre diferentes casos específicos no contexto latino-americano e, em particular, na Argentina.

  • A perspectiva da interculturalidade na América Latina 
  • O paradigma internacional atual da conservação 
  • Perspectivas ancestrais sobre território, natureza e conservação 
  • Justiça territorial e direitos humanos na conservação 
  • Conflitos socioambientais, povos indígenas e territórios em relação aos Estados 
  • Mecanismos participativos para a gestão territorial 
  • Interculturalidade nas políticas públicas de conservação 
  • Trocas de experiências e estudos de caso

- Briones, C. 2005. Formações da alteridade: Contextos globais, processos nacionais e provinciais. In Cartografias Argentinas. Políticas indígenas e formações provinciais da alteridade, Editorial Antropogagia, Buenos Aires, Capítulo Um, pp. 11-43.

- Dussel, E. 2000. A colonialidade do conhecimento: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas América Latina. CLACSO. 

- Horn, P. et al. 2021. Territórios Disputados: Diálogos Estudos interdisciplinares sobre conflito, resistência e alternativas. Lições da América Latina. Série de Documentos de Trabalho sobre Territórios Contestados 1, 1-43. 

- Tubino, F. e Flores, A. 2020. Interculturalidade crítica como política de reconhecimento. Pontifícia Universidade do Peru, Lima. Briones, CN 2009. Diversidade cultural e interculturalidade: do que estamos falando?; Prometeo, 35-58. 

- Diaz, P. 2003. Interculturalidade no debate. Apropriações teóricas e políticas para uma educação desafiadora. Artigos de Professor Visitante, LLILAS, Universidade do Texas em Austin. 

- Degele, PE, Pedregal, B., 2022. Diálogo Norte-Sul sobre políticas e discursos territoriais: perspectivas para o futuro da conservação da natureza. Land 11, 994. https://doi.org/10.3390/land11070994.

- Swyngedouw, E. 2011. A natureza não existe! A sustentabilidade como sintoma do planejamento despolitizado. Urbano, 1, 41–46

- Oviedo, G. 2008. Áreas protegidas, desenvolvimento e cultura. Cartas Verdes 2, 2-4. 

- Millan, M; Chaparro, MG; Mariano, M. 2019. Diálogos interculturais sobre territórios ancestrais na província de Buenos Aires, Argentina; Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais do Equador; Ícones. Revista de Ciências Sociais; 63; 161-184. 

- Ñanculef Huaiquinao, J. (2016). Tayiñ Mapuche Kimün Mapuche Epistemologia - Sabedoria e Conhecimento. Santiago, Chile: Universidade do Chile. 

- Alfonso Cárdenas, LD e Martínez Soriano, AF 2020. Pedagogia Espiral: Seres, Saberes e Territórios em Reexistência. Práticas Educacionais, Pedagogia e Interculturalidade. V Congresso Internacional de Etnografia e Educação. 

- Svampa, M. As fronteiras do neoextrativismo na América Latina: conflitos socioambientais, virada ecoterritorial e novas dependências. Bielefeld: Universidade de Bielefeld. 

- Gudynas, E. 2021. Justiça da água: explorando as variedades da justiça e os direitos da natureza. In: Justiça da água: uma perspectiva da América Latina (37-56). Alicia Guzmán León, ed. Centro Bartolomé de las Casas, Cusco. 

- Brei, A. 2013. Direitos e Natureza: Abordando as Questões Ambientais por meio dos Direitos Humanos. Revista de Ética Agrícola e Ambiental, 26, 393-408. 

- Miguel Leone. 2013. Povos Indígenas e Democracia. Formação de Novos Sujeitos Políticos. Argentina, 1983-2013. X Conferência de Sociologia. Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Buenos Aires, Buenos Aires. 

- Quijano, A. 2005. «O “movimento indígena”, a democracia e as questões pendentes na América Latina», Polis, 10. Lanata, JL 2014. Práticas genocidas e violência estatal em perspectivas transdisciplinares. - 1ª ed. – San Carlos de Bariloche : IIDyPCa-CONICET. 

- Borrini-Feyerabend, G., Dudley, N., Jaeger, T., Lassen, B., Pathak Broome, N., Phillips, A., e Sandwith, T. 2014. Governança de áreas protegidas: da compreensão à ação. Gland, Suíça: IUCN. Vladimir Zambrano, C. (2001). Territórios plurais, mudança sociopolítica e governança cultural. Boletim Goiano de Geografia, 21(1), 9-50. 

- Massiris, A. 2005. Fundamentos conceituais e metodológicos do planejamento territorial. Tunja, Colômbia: Uptc 

- Ruiz Velez, RR e Espinales Laaz, JA 2023. Patrimônio Natural Público na perspectiva dos direitos humanos no contexto equatoriano. 

- Aylwin, J. e Cuadra, X. 2011. Os desafios da conservação em territórios indígenas no Chile. Observatório Cidadão, Chile. Ulloa, A. 2010. Reconfigurações conceituais, políticas e territoriais nas demandas de autonomia dos povos indígenas na Colômbia. Tabula Rasa 13 73-9.

-Luis Cayón, «Descobrindo a natureza. Direito natural e organização territorial indígena na Amazônia colombiana», Anuário Antropológico [Online], v.35 n.1 | 2010 

- Degele, P. e Millán, M. 2023. O conflito sobre Cerro Largo (Argentina): reinterpretando o território, sua disputa e conservação a partir da cosmovisão ancestral Mapuche. Diálogo Andino 69, 198-209. 

- Trentini, F. (2012). Ecologia política e conservação: o caso da “cogestão” do Parque Nacional Nahuel Huapi e do povo Mapuche. Diário Pilquén, 14(15), 1-11. 

- Anaya, FC e Espírito-Santo, MM (2018). Áreas protegidas e exclusão territorial de comunidades tradicionais: analisando os impactos sociais do meio ambiente 

estratégias de compensação no Brasil. Ecologia e Sociedade 23(1), 8.

 

 

Desconto para pagamento único até 03/10

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Em todos os casos, o pagamento pode ser feito por cartão de crédito, depósito ou transferência bancária.
 
*Os residentes da Argentina pagarão o equivalente em pesos argentinos de acordo com a taxa de câmbio oficial do Banco de la Nación Argentina (BNA) no dia do pagamento.
 
*Ao se inscrever nesta atividade de treinamento, você receberá 3 meses de acesso com desconto, sem custo algum. Sala de aula CLACSOAcesso ilimitado a todo o conteúdo. 

Perguntas frequentes

Os requisitos básicos para participar de um seminário são:

  • Disponibilidade de pelo menos 4 horas por semana para se dedicar ao curso do seminário.
  • Acesso à Internet.
  • Domínio adequado das ferramentas de comunicação e informática.
  • Proficiência no idioma em que o curso será ministrado. Os idiomas oficiais são o espanhol e o português.

Os seminários têm duração de 12 semanas, além da conclusão de um projeto final. Um total de 90 horas de dedicação será creditado.

O curso é composto por doze aulas, cada uma acompanhada de bibliografia obrigatória, bibliografia complementar, fóruns de discussão e atividades de formação propostas pela equipe docente, trabalhos parciais e um projeto final.
O curso é online e assíncrono. Alguns instrutores podem propor atividades síncronas. Nesses casos, a data e o horário serão combinados previamente entre a equipe docente e os alunos para garantir a participação de todos.
Para ser aprovado no seminário, você deve participar de pelo menos 80% dos fóruns de discussão e atividades propostas pelos professores, ter concluído as entregas parciais programadas e ser aprovado no trabalho final.

 

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