Declaração sobre o avanço fascista na região

 Declaração sobre o avanço fascista na região

Em resposta às mobilizações massivas de mais um dia 8 e 9 de março, os membros do grupo "Violência, Políticas de Segurança e Resistência" declaram…

Nos dias 8 e 9 de março, deparamo-nos com o avanço fascista na região e, juntamente com ele, com o ressurgimento de discursos anti-direitos englobados pela “ideologia de gênero” que atravessam a América Latina e o Caribe.

As territorialidades e as realidades corporificadas estão sendo devastadas por um patriarcado implacável, um neoliberalismo arraigado e a ascensão de projetos extrativistas que mercantilizam a própria vida. Nesse contexto, a segurança humana está sob constante ameaça, confirmando a validade da avaliação da ONU de que a América Latina e o Caribe são a "região mais perigosa e letal do mundo" para as mulheres. É, portanto, essencial continuar lutando para garantir que os avanços e conquistas alcançados nos direitos das mulheres e de outras pessoas de gênero se tornem realidade em todo o continente.

Assim, enfrentamos uma escalada de violência e repressão policial e militar que expõe os verdadeiros valores daqueles que detêm o monopólio da força. Consequentemente, operações massivas têm sido realizadas sob o pretexto de políticas de segurança e contra protestos feministas, em conluio com a grande mídia, culminando em momentos de violência social e política que devem continuar a ser denunciados.

Mais uma vez, essa lógica perpetua a criminalização da dissidência: mulheres, pessoas trans e travestis são agora rotuladas como vândalas e violentas, quando não infantilizadas, em um sistema patriarcal e centrado no adulto que se recusa a reconhecer suas demandas e busca reverter direitos arduamente conquistados. É nesse contexto que os movimentos feministas tecem resistência em escala regional, refletindo o fato de que a violência se acumula e se espalha regionalmente. A luta é pelo reconhecimento de nossas diferenças: sexuais, raciais, políticas e geracionais, todas unidas por um poderoso fio violeta que entrelaça as vidas latino-americanas e caribenhas, confirmando o iminente: o feminismo nessas latitudes é antirracista e anticapitalista.

A greve e a paralisação transformaram as ruas em palcos gigantescos de dança e canto, cujas reivindicações revelaram a significativa diversidade da violência e, ao mesmo tempo, evidenciaram sua própria origem: um patriarcado estrutural e simultâneo. É nesse contexto que emergiram expressões de um novo – outro – envelhecimento feminista: mulheres cujos corpos e mentes testemunharam as mais extremas crueldades das ditaduras militares e os mais atrozes genocídios; mulheres indígenas e afrodescendentes que continuam sendo violentadas e assassinadas sob bandeiras racistas, coloniais e extrativistas; mulheres lésbicas, trans e bissexuais; mulheres que lutam por infâncias livres, pela maternidade desejada e pelos direitos reprodutivos, entre outras. Nesses corpos, teceu-se um fio inquebrável que conecta temporalidades, territorialidades e que se materializa em um cenário onde o medo surgiu e surge, paradoxalmente, nas mãos daqueles que têm o dever de cuidar, de efetivar os direitos e de garantir a segurança humana, ou seja, as forças de segurança.

A greve e a paralisação nos lembram que o feminismo é resistência e rebeldia, que a ação direta é o mecanismo de resposta aos cenários cada vez mais perversos que prejudicam os mais vulneráveis. Mas o feminismo também é a união da dor e da celebração, é o ativismo que reivindica a alegria sem perder a indignação, como nos ensina a feminista comunitária guatemalteca Lorena Cabnal. E assim, a cada 8 e 9 de março, o espaço público é tomado pela força da luta e da resistência feminista.

Março 2020
Grupo de trabalho
violência e resistência política

Esta declaração expressa a posição do Grupo de Trabalho sobre Povos Indígenas e Projetos Extrativistas e não necessariamente a dos centros e instituições que compõem a rede internacional da CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.