A CLACSO repudia o ataque do governo brasileiro às Ciências Sociais e à Filosofia.
Em 26 de abril, Bolsonaro declarou que está estudando a transferência de recursos públicos da área de ciências humanas para as ciências exatas e biológicas, pois isso traria “maior retorno” ao país. Não se trata de desconhecimento, por parte do presidente, da importância das ciências sociais e da filosofia para o desenvolvimento do Brasil. Esse ataque faz parte da estratégia de uma forma de organização política que Marilena Chauí denominou Totalitarismo neoliberal.
Suas características incluem a transformação de instituições constituídas por princípios democráticos em instituições com princípios corporativos, visando ao produtivismo no mercado; a judicialização da política, criminalizando conflitos e aniquilando direitos humanos; a descontinuidade de políticas públicas e a privatização; a alocação de recursos públicos para iniciativas privadas por meio de isenção fiscal em um claro processo de transferência de riqueza para corporações; a produção de notícias falsas e ignorância; a individualização em disputas competitivas, gerando ódio, ofensas, violência e depressão; a criminalização de trabalhadores e movimentos socioterritoriais, acusados de serem obstáculos ao desenvolvimento.
Em um ajuste alucinatório, o presidente e sua equipe buscam aniquilar os direitos previdenciários garantidos pela Constituição, interromper a política de reforma agrária, reverter os decretos de criação de territórios indígenas e reservas ambientais para expandir a produção de commodities agrícolas e minerais. O totalitarismo neoliberal no Brasil está sendo implementado por meio da militarização, na qual todos os órgãos governamentais, incluindo os da educação e da agricultura, impedem que as populações indígenas e rurais acessem seus projetos de educação emancipadora e crítica.
Essa forma de totalitarismo se impõe pela destruição das conquistas da classe trabalhadora, pela destituição de dois conselhos participativos, pelos quais representantes da sociedade civil lidam com questões como educação, alimentação, saúde, etc. Impõe-se contra os pobres, negros, mulheres, feministas, movimentos LGBT, imigrantes, sem-terra, sem-teto, índios, idosos, enfim, contra a reivindicação e os direitos, contra o conflito e o pensamento crítico. Ora, conflitos e diferenças são partes essenciais das instituições democráticas. É contra a democracia que o totalitarismo neoliberal ameaça reduzir os recursos públicos para as ciências sociais e a filosofia. A XXVI Assembleia Geral Ordinária, realizada em Buenos Aires nos dias 17 e 18 de novembro de 2018, aprovou a criação da Frente Latino-Americana e Caribenha em Defesa da Democracia. Pelos motivos expostos neste manifesto, a CLACSO repudia o totalitarismo neoliberal que norteia as ações do governo Bolsonaro e defende a autonomia universitária e a liberdade acadêmica, conquistas democráticas em todo o mundo. É da natureza da CLACSO lutar contra qualquer retrocesso político, econômico e social que coloque em risco o acesso ao conhecimento e a melhoria da qualidade de vida de duas pessoas. Em toda a América Latina e Caribe, estaremos atentos e lutando em defesa da democracia.