CLACSO, uma rede de pensamento crítico e transformador.

Colegas, amigos e membros da rede CLACSO: Primeiramente, muito obrigado. Estamos concluindo um ano intenso, marcado por diversas complexidades em nível global, em nossas sociedades, em nossas democracias e também em instituições como a CLACSO, que se dedicam diariamente ao pensamento crítico e transformador, à justiça social e à construção de um terreno comum na diversidade.

Vivemos em tempos de conflito. Uma época em que se tenta normalizar a desigualdade, a violência e o ódio; uma época marcada pela ascensão de discursos anticientíficos, antidireitos, autoritários e negacionistas, impostos pela extrema-direita, que buscam corroer as conquistas históricas do nosso povo.

Em diversos países da região, a ascensão de forças de direita e extrema-direita consolidou-se, com agendas que ameaçam os processos de integração, os direitos arduamente conquistados e as políticas públicas desenvolvidas nas últimas décadas. Isso cria um cenário em que os próximos ciclos eleitorais serão cruciais para o fortalecimento, a revitalização e a expansão da democracia em nosso continente.

Globalmente, estamos testemunhando uma intensificação das disputas geopolíticas e uma crise no mundo multilateral, onde atores que percebem sua hegemonia como ameaçada estão adotando estratégias militares, econômicas e políticas cada vez mais agressivas. Isso se manifesta em intervenções unilaterais, pressões comerciais e apoio aberto a projetos autoritários, mas também — e especialmente preocupante — em um processo acelerado de militarização e um risco crescente de conflitos armados em nossa região, ameaçando a paz, particularmente no Caribe.

Este cenário não só mina a estabilidade regional, como também afeta diretamente o quotidiano da maioria da população e a própria possibilidade de sustentar democracias fortes e formas de convivência pacífica, onde os conflitos são resolvidos. Portanto, torna-se ainda mais urgente fortalecer a nossa soberania, a nossa integração e as nossas capacidades regionais para enfrentar estes desafios com uma perspetiva de paz, direitos humanos e cooperação.

Nesse contexto, fortalecer um projeto como o CLACSO é uma tarefa ética e política urgente e necessária. Faz parte da luta para interpretar o significado do nosso tempo, democratizar o conhecimento, defender a igualdade, reconhecer a diversidade, descolonizar todas as dimensões das nossas vidas e lutar pela liberdade e dignidade.

Conseguir tudo isso só é possível coletivamente. Por isso, muito obrigado.

Graças à dedicada equipe da Secretaria Executiva, que conduz cada processo e projeto com empenho, inteligência e sensibilidade. Graças à rede de centros membros, o coração da CLACSO, pois sem essa rede coletiva que se estende por todos os países da América Latina e do Caribe e outras regiões do Sul Global e do mundo, a organização não existiria.

Agradeço ao Comitê Diretivo, à equipe de gestão que me acompanha e a todos que ajudam a orientar as decisões estratégicas desta etapa. Agradeço aos Grupos de Trabalho, a todos que participam dos programas de formação como professores ou alunos, a todos que atuam como tutores e avaliadores de editais de pesquisa e aos autores de nossas publicações.

Agradecemos também às organizações parceiras com as quais continuamos a trabalhar e com as quais estamos a estabelecer novas parcerias e colaborações, porque sabemos que os desafios do presente não são enfrentados sozinhos, mas sim em conjunto, em rede e com uma perspetiva regional.

Com o fim deste ano se aproximando, marcando os primeiros seis meses da nova administração, gostaria de compartilhar alguns marcos que expressam essa vontade coletiva:

Na área de formação, demos um passo muito importante com o lançamento de três novas Especializações: “Métodos e Técnicas de Pesquisa Social”, “Infância e Juventude” e “Políticas de Cuidado com Perspectiva de Gênero”, que constituem uma proposta acadêmica conjunta da Universidade de Manizales, do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) e do Centro Internacional de Educação e Desenvolvimento Humano (CINDE), por meio de seu Centro de Altos Estudos em Infância e Juventude (CEANJ).

Essas especializações possuem título oficial e registro qualificado emitido pelo Ministério da Educação Nacional da Colômbia.

Isso reforça nosso compromisso com uma formação rigorosa, de alta qualidade, crítica e atualizada, com reconhecimento internacional e uma perspectiva profundamente latino-americana, caribenha e do Sul Global.

Paralelamente, promovemos um formato fundamental neste contexto: cursos de curta duração, como uma forma ágil e inovadora de ampliar o alcance do CLACSO, responder às demandas emergentes e facilitar o acesso a conhecimentos atualizados que constituem uma verdadeira ferramenta de ação. Em um momento em que os ritmos sociais e políticos exigem dinamismo e atualização constante, buscamos fazê-lo sem sacrificar a profundidade ou a qualidade acadêmica.

No que diz respeito à pesquisa e gestão do conhecimento, fortalecemos a rede com a nova Chamada para Grupos de Trabalho para o período de 2026-2028, que renova agendas, abordagens e debates. Os Grupos de Trabalho continuam sendo o espaço mais importante da CLACSO para a produção de conhecimento coletivo, situado, baseado em ciência aberta, engajado, intergeracional e inter e transdisciplinar.

Outro marco importante foi a consolidação de uma perspectiva estratégica a partir do Sul Global. Fortalecemos nossa presença nos debates internacionais sobre as principais transformações geopolíticas do mundo contemporâneo, incluindo espaços de diálogo com os BRICS e BRICS+, com a China, com a CELAC e com a União Europeia, sempre a partir de uma perspectiva crítica e contextualizada da América Latina e do Caribe. Para a CLACSO, participar desses espaços não significa simplesmente “estar presente”: significa contribuir com análises históricas, uma perspectiva regional e o desenvolvimento de alternativas a uma ordem mundial cada vez mais desigual e a um multilateralismo em crise.

Nessa mesma linha, estamos trabalhando para fortalecer as parcerias regionais. Tivemos um papel muito importante no Congresso da ACAS, realizado em Honduras em agosto, reafirmando nosso compromisso com a América Central e com as redes acadêmicas locais que apoiam a pesquisa, o ensino e o pensamento crítico e transformador em contextos frequentemente adversos. As alianças regionais são parte da maneira como construímos nossa força coletiva.

Gostaria de acrescentar outro aspecto fundamental a esta avaliação: a comunicação. Em julho, lançamos uma nova temporada do InfoCLACSO, reforçando nosso conteúdo audiovisual e de entrevistas como parte do trabalho político, cultural, intelectual e de conscientização que realizamos no CLACSO: abrindo conversas públicas, destacando debates urgentes e fomentando o diálogo entre diversas vozes. Nessa mesma linha, estreámos a série CLACSO.CINE, um compromisso com o uso da linguagem audiovisual e cinematográfica para examinar criticamente as nossas realidades, resgatar memórias, envolver sensibilidades e criar novos espaços para a reflexão coletiva. Ao mesmo tempo, estamos a desenvolver novas estratégias nas redes sociais, procurando ampliar o nosso público, conectar-nos melhor com a comunidade académica e os movimentos sociais, e manter uma presença mais dinâmica, consistente e participativa na esfera pública digital. Em tempos de lutas simbólicas e baseadas em significados, comunicar também significa construir organização.

No campo das publicações, também fizemos progressos significativos. Nossas linhas editoriais cresceram e se fortaleceram, ampliando a circulação do conhecimento crítico produzido pela rede com base no acesso aberto e na ciência aberta. As publicações da CLACSO continuam sendo uma ferramenta estratégica para a democratização do conhecimento: mais livros, expansão para outros formatos de publicação, maior presença regional e global e mais diálogo entre aqueles que pesquisam, ensinam e se esforçam para transformar a realidade. Publicar não se resume a editar textos: trata-se de sustentar uma política aberta e democrática do conhecimento e uma memória viva do pensamento latino-americano e caribenho.

2025 também foi o ano da nossa 10ª Conferência Latino-Americana e Caribenha de Ciências Sociais, realizada em Bogotá, Colômbia, berço da CLACSO há quase 60 anos. Na capital colombiana, fomos enriquecidos por todas as contribuições que emergiram desse encontro, que serviu como um espaço para a construção de um terreno comum em meio à diversidade. E isso aconteceu com a participação ativa de jovens que preencheram cada dia. Isso nos oferece um verdadeiro guia para a nova etapa do nosso Conselho, que já inicia sua jornada rumo à 11ª Conferência, o 60º aniversário da CLACSO, a ser realizada em 2028.

Em nível institucional, estamos progredindo em direção a um objetivo central: fortalecer o alcance de nossa rede e manter um diálogo ativo com cada um dos Centros Membros. Estamos implementando um processo de consulta que nos permitirá obter uma compreensão mais detalhada de nossa rede em suas diversas realidades, entender melhor sua dinâmica, aspirações e necessidades, identificar suas capacidades e, sobretudo, encontrar maneiras de torná-la ainda mais próxima, coordenada e participativa.

A CLACSO é uma organização internacional que se baseia na força dos seus centros: o seu poder será plenamente desenvolvido quanto mais expandirmos essa participação, quanto mais ouvirmos os centros e quanto mais construirmos decisões conjuntas.

Nos últimos meses, aprofundamos iniciativas que buscam ampliar horizontes e inovar com uma perspectiva voltada para o futuro. Como objetivo estratégico, o CLACSO está abrindo e consolidando áreas-chave para os próximos anos, incluindo a geopolítica do Sul Global, as sociedades digitais e a inteligência artificial, as democracias, o valor das ciências sociais, das humanidades, das artes e da educação pública, e as transições justas. Esses são debates inevitáveis; debates que não podemos deixar para perspectivas tecnocratas, neoliberais ou conservadoras. Precisamos considerá-los a partir de nossas próprias realidades, com foco em direitos, igualdade, justiça e democracia.

Fizemos e continuaremos a fazer tudo isso em um contexto difícil. Isso se deve não apenas a disputas políticas, culturais e geopolíticas, mas também às tensões que afetam o financiamento e a cooperação internacional. Sabemos que a sustentabilidade institucional é um desafio constante que se torna ainda mais agudo nestes tempos. A CLACSO tem história, criatividade, uma rede de contatos, legitimidade, solvência, capacidade de alocar recursos e um futuro. Mais do que nunca, precisamos de inteligência estratégica e coletiva, trabalho colaborativo e uma rede ativa que sustente a autonomia do pensamento crítico e transformador em nossa América e globalmente.

Concluo esta mensagem com uma convicção: a CLACSO é mais do que uma instituição acadêmica. É uma comunidade política e intelectual; um projeto histórico de integração e cooperação; um espaço para a produção de pensamento crítico e transformador, que reconhece experiências e trajetórias, ao mesmo tempo que dá origem a tendências emergentes, inovações e à antecipação de futuros.

Com 2026 a poucos dias de distância, meu desejo é que continuemos construindo esse futuro juntos: expandindo a rede, fortalecendo alianças, cuidando do que foi conquistado, projetando o futuro e abrindo caminhos para novas gerações de pensamento crítico e transformador na América Latina, no Caribe e no Sul Global.

Obrigado por tudo que compartilhamos este ano. Pela confiança, pelo trabalho, pelo carinho e pelo compromisso responsável e constante. Temos uma base sólida para seguir em frente, passo a passo, construindo o presente juntos e olhando para o futuro.

Pablo Vommaro
Diretor Executivo da CLACSO