"A CLACSO é uma aliada com quem podemos alcançar muitos dos nossos objetivos."
No âmbito do Fórum "Movimentos sociais e territórios para a vida”, que ocorreu nos dias 29 e 30 de junho em Fortaleza, Brasil, conversou com o CLACSO.tv Mateo Adarve, Oficial de Programa na Agência Sueca de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (SIDA).
– Qual a importância deste tipo de encontro no âmbito das Plataformas para o Diálogo Social, na sua perspetiva enquanto profissional da Cooperação Sueca?
– Algo tem nos tocado durante todo esse tempo em que temos interagido nesses fóruns internacionais, e esse algo são os momentos culminantes das Plataformas para o Diálogo Social (PDS). Porque acredito sinceramente que vocês vivenciam em primeira mão o que significa encontrar essas três dimensões: movimentos sociais, tomadores de decisão em políticas públicas e o meio acadêmico.
Mas, além disso, acredito que a importância do PDS para nós reside na integração regional da América Latina, tanto de baixo para cima quanto descentralizada. É uma integração que não se dá por meio da diplomacia, do Estado tradicional, onde a integração geralmente se concentra. Além disso, é descentralizada porque ocorre em locais onde a integração latino-americana normalmente não acontece.
Por exemplo, hoje estamos em Fortaleza, que, embora seja uma das cinco cidades mais importantes do Brasil, não é um local tradicional para um fórum deste tipo: internacional, com diálogo intergeracional e intercultural. Para nós, é sobre isso que viemos refletir: como as Plataformas de Diálogo Social contribuem para uma forma de integração regional que certamente substituirá esses modelos tradicionais e gerará muita discussão.
– Nesse sentido, tenho interesse em explorar o que você estava dizendo, que algumas novas abordagens poderosas estão sendo descobertas. Estamos passando de uma abordagem mais tradicional para a diplomacia e a integração para uma que é em larga escala, porém local, pessoal, individual, de grupo para grupo. Estávamos conversando com alguns movimentos sociais sobre como eles percebem membros de movimentos sociais que vêm de outras partes da região, e está havendo uma troca muito poderosa para entender possíveis soluções para problemas comuns, apesar da distância. O que você acha disso?
É muito interessante porque o que significa essa convergência entre o local e o global? Eu também estava conversando, acho que até com algumas das pessoas com quem você conversou, e elas se sentem limitadas à sua forma de cooperar em uma área específica do Brasil. Quer dizer, eu estava perguntando a elas: que tipo de diálogo vocês têm, por exemplo, com o movimento indígena na Amazônia? Eu estive em Belém do Pará na semana passada, onde existe um grande movimento indígena transamazônico, que se desenvolveu ao longo do tempo por meio de dinâmicas bastante singulares e porque o próprio rio, o meio natural de comunicação para toda a região, o facilita.
Mas aqui no nordeste do Brasil, não há diálogo entre os movimentos da região e os da Amazônia, e muito menos entre esta localidade e a América Latina como um todo. Portanto, acredito que exista um desafio significativo aí, e essa é também uma das lacunas que estamos tentando preencher.
– Isso me faz pensar em quantas possibilidades de diálogo existem. Qual você acha que é a contribuição da Cooperação Sueca para esse tipo de diálogo? Porque este é um diálogo transatlântico, que envolve a Suécia e a América Latina, mas também as dinâmicas internas dentro da América Latina. Trata-se de fortalecer diálogos internos que, embora as distâncias sejam menores, parecem mais longas em termos de comunicação, não é?
— Bem, na verdade, na minha experiência pessoal, foi mais fácil chegar a Estocolmo em termos de tempo do que chegar a Fortaleza. É também esse tipo de distância que estamos tentando encurtar.
Mas, para responder à sua pergunta de forma mais direta, qual é o papel da Cooperação Sueca? Temos uma relação de longa data com a CLACSO por vários motivos. Há uma história que remonta aos regimes autoritários que existiram na América do Sul, o que tornou essas redes necessárias. Foi uma abordagem muito reativa. Naquela época, tratava-se de apoiar refugiados políticos e dar-lhes oportunidades fora de seus países até que pudessem retornar do exílio. E essas redes de solidariedade mais tarde se transformaram nas redes maiores que são a CLACSO hoje.
Mas o papel da Cooperação para nós também se alinha com os objetivos e a missão da CLACSO, porque a CLACSO, antes de mais nada, concentra-se nas desigualdades e na eliminação de todas as barreiras estruturais à pobreza. Em segundo lugar, promove a democratização do conhecimento e o livre acesso a ele, o que é fundamental para a sociedade sueca. E há várias outras áreas-chave de convergência sobre as quais eu poderia falar com mais detalhes.
Assim, para nós, a CLACSO é uma aliada com quem podemos alcançar muitos dos nossos objetivos. E, por outro lado, num nível mais direto de cooperação entre países — nos âmbitos académico e cultural — também estamos interessados nestes potenciais diálogos entre académicos, não só na Suécia, mas em todos os países nórdicos. É por isso que temos vindo a trabalhar nestes potenciais diálogos, por exemplo, com o Instituto Nórdico de Estudos Latino-Americanos e com latino-americanistas sediados nos países nórdicos.
Tudo isso gera discussões que não são apenas mais amplas, mas também envolvem a navegação entre diferentes níveis: local, nacional, regional e, agora, em menor escala, internacional. E nessas discussões, se nos concentrarmos nas questões que nos unem hoje, é essencial envolver todos os níveis. Estamos falando de questões ambientais, territorialidade, mudanças climáticas e assim por diante.
– Entendendo que a lógica da globalização teve alguns processos muito destrutivos, especialmente para as comunidades locais, mas também que existem benefícios potenciais, particularmente no acesso ao conhecimento, como você mencionou. Como você interpreta essa troca de conhecimento entre os países nórdicos e a América Latina? Tanto em termos de soluções e estratégias dos países nórdicos que poderiam ser muito eficazes para certas questões na América Latina, quanto em termos de questões latino-americanas que poderiam ser muito valiosas para os países nórdicos. Qual é a natureza dessa comunicação?
— Vou tentar dar um exemplo específico, porque é difícil compreender esse tipo de ideia de outra forma. Algo que muitas pessoas não sabem é que a Suécia também enfrenta muitos dilemas em relação a questões ambientais, como seu relacionamento com o povo Sapmi, a população indígena da Suécia. Nesse caso, que tipo de diálogo é possível? Ele se baseia em outras formas de habitar o mundo que existem não apenas aqui na América Latina, essas formas epistemológicas e ontológicas de se relacionar com a terra, o meio ambiente e a vida, mas que também existem na Suécia.
Esse é um tipo de diálogo que já facilitamos, ainda que de forma limitada, em ocasiões anteriores. Por exemplo, representantes do Parlamento da SAPMI foram à Guatemala para conversar com representantes dos povos indígenas guatemaltecos. São esses os tipos de cenários — globais e locais ao mesmo tempo — que queremos incentivar e promover.
– Nesse contexto, um dos principais temas que emergiu aqui, nas conversas e debates que tivemos na CLACSO.tv, foi a mudança climática. É um tema de extrema profundidade e gravidade, que atravessa diferentes movimentos sociais. Que importância você atribui a essas questões quando a discussão em torno delas é, por vezes, obscurecida por notícias falsas e quando é difícil apresentar a realidade da mudança climática com clareza?
— Em primeiro lugar, quero dizer que o governo e o povo sueco atribuem uma prioridade máxima às mudanças climáticas em todo o mundo. É a questão mais importante. Aliás, posso atestar essa importância com algo que aconteceu ontem: a nomeação do novo Diretor-Geral da SIDA. Essa mudança ocorreu devido ao novo governo, e essa pessoa vem justamente da academia, tendo trabalhado, por exemplo, com dados relacionados às mudanças climáticas. Portanto, é muito significativo.
Mas, além disso, para nós, a cooperação, por exemplo, a cooperação regional com a América Latina e o Caribe, vai além da nossa parceria com a CLACSO, porque, é claro, temos muitos outros parceiros que também trabalham com mudanças climáticas sob diferentes perspectivas. Uma delas é um tema que é muito relevante atualmente: a bioeconomia. Como podemos gerenciar modelos econômicos alternativos para sustentar a vida das comunidades nas áreas mais afetadas pelas mudanças climáticas? Como podemos gerar estratégias de adaptação e resiliência de alguma forma?
Por outro lado, estamos trabalhando em uma dimensão muito importante, que também nos une aqui em Fortaleza hoje: a justiça climática, como podemos nos mobilizar de forma mais eficaz. E aqui também devemos aproveitar um momento crucial para a América Latina, que é a convergência de diferentes governos e a vontade política de se mobilizar na questão das mudanças climáticas.
Nesse sentido, nossa estratégia também envolve a mobilização de movimentos para que estejam bem preparados para esses eventos futuros. Um deles, que acontecerá muito em breve, é a Cúpula de Presidentes da Amazônia, em agosto, que será realizada em Belém do Pará. O segundo é a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP), também em Belém do Pará. Agora, os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil, para Belém do Pará, para a Amazônia. E acredito que essa renovação da vontade política na América Latina em relação ao Tratado da Amazônia, essa tentativa de reviver sua essência fundamental, faz parte daquilo que a Suécia também deseja mobilizar neste momento.
– Ao longo deste período, temos conversado com Karina Batthyány, Diretora Executiva da CLACSO, sobre as Plataformas para o Diálogo Social, cada uma delas, e sua crescente importância. A palavra "transversalidade" também é muito poderosa aqui, porque entender uma plataforma sem as outras significa não compreender a complexidade, como tudo funciona e como este trabalho tão importante com a ASDI está progredindo. Qual é a sua perspectiva, do outro lado, sobre o que esse progresso implica e quais são os próximos passos para as Plataformas para o Diálogo Social nesta aliança com a CLACSO?
— Acho que navegamos com muito sucesso pela fase inicial de desenvolvimento dessas Plataformas para o Diálogo Social. Construímos uma estrutura que nos permite atrair uma massa crítica. Penso que agora é o momento de gerar impacto. É hora de expandir, de levar as mensagens que temos desenvolvido com a academia, formuladores de políticas e movimentos sociais, e apresentá-las às arenas de tomada de decisão onde elas precisam chegar. E também a um público mais amplo. O desafio agora é como apresentá-las de uma forma que as torne acessíveis e apropriadas em diferentes contextos. Acho que é isso que vem a seguir.
Entrevista concedida a Gustavo Lema.
Fórum Internacional sobre Movimentos Sociais e Territórios para a Vida
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