Ciclo de palestras abertas: O direito à cidade? Lutas por moradia digna e acesso equitativo à cidade em Cali, Buenos Aires e Berlim.

 Ciclo de palestras abertas: O direito à cidade? Lutas por moradia digna e acesso equitativo à cidade em Cali, Buenos Aires e Berlim.

Esta cadeira é fruto da colaboração entre movimentos sociais e organizações comunitárias de três territórios: Cali, Buenos Aires e Berlim, que se uniram a partir das lutas por moradia digna e acesso justo à cidade.

O objetivo central é tornar visíveis, refletir sobre e divulgar as experiências de lutas, organização e resistência contra a mercantilização do habitat e da cidade, explorando como o modelo capitalista viola sistematicamente o direito à moradia digna e ao território.

Ao longo de quatro sessões, um diálogo transterritorial é tecido entre processos organizacionais da Colômbia, Argentina e Alemanha, mostrando que, apesar das distâncias geográficas e culturais, as lutas urbanas compartilham inimigos comuns: a especulação imobiliária, a financeirização dos direitos, a privatização dos recursos públicos e a exclusão planejada.


Sessão 1: Ninguém fica sem um lar, nem um lar fica sem um lar.

Esta sessão visa estabelecer os fundamentos teóricos e políticos da cátedra, definindo, a partir de vozes populares, três problemas estruturais que violam o direito à moradia digna e o direito à cidade:

1. Bancarização de direitos: Como a habitação e o habitat se tornam mercadorias financeiras, sujeitas a empréstimos hipotecários, subsídios condicionados e endividamento perpétuo, excluindo os setores populares.

2. Privatização do habitat e dos serviços: O controle da terra, da água, do transporte e da energia por atores privados, o que gera segregação urbana e desapropriação.

3. Inércia estatal: A falta de vontade política e a incapacidade dos Estados de garantir direitos, apesar da existência de marcos regulatórios, o que deixa o ônus da resistência para as comunidades.

Participantes:

  • Bernarda Pabón (CECUCOL/ Minga Social, Popular e Comunitária de Cali, Colômbia)
  • Ana Gamarra (ACUMTIS, Buenos Aires, Argentina)
  • Fernando Martinez (Cidade Migrante / Bloco Latino-Americano Berlim, Alemanha)
  • Anny Roa Pabón (CECUCOL / Minga Social, Popular e Comunitária de Cali, Colômbia)
  • Rebecca Campos Siebeck (Perspectiva Latino-Americana, Kassel, Alemanha)

Questões para continuar a refletir:

De que forma a financeirização da habitação transforma um direito humano em mercadoria, e quais as implicações disso para a autonomia e a reprodução da vida nos territórios populares?

Que alternativas poderíamos considerar para desvincular o acesso à habitação e à cidade da lógica do mercado e do endividamento?


Sessão 2: Urbanização e reurbanização: a luta por moradia digna em Villa 20, Buenos Aires

Esta sessão apresenta a experiência concreta da Villa 20 em Buenos Aires, um bairro operário que alcançou um processo de renovação urbana e reconhecimento de direitos impulsionado pela organização comunitária com base em 3 áreas principais:

1. A luta histórica pela urbanização

2. Trabalho comunitário como base

3. Resistência à mudança conservadora

Participantes:

  • Marisa Llanos (ACUMTIS)
  • Beatriz Pedro (ACUMTIS)
  • Martin Aldao (ACUMTIS)

Questões para continuar a refletir:

Que lições podemos aprender com a experiência da Villa 20 no que diz respeito à construção do poder popular e à gestão comunitária do habitat como estratégia para enfrentar a exclusão urbana?

Num contexto de avanços em políticas neoliberais e repressivas, como podem as organizações sociais proteger as conquistas alcançadas e sustentar os processos de autogestão e cuidado coletivo?


Sessão 3 – Por uma vida, por um teto sobre a cabeça: Moradia é um direito! De Cali, em movimento pelo direito à terra, ao território e a uma moradia digna.

Esta sessão, centrada na experiência da Minga Social Popular e Comunitária de Cali, aborda o direito à moradia digna, à cidade e ao território sob a perspectiva dos Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (DESC). Desenvolve três temas principais:

1. Exigibilidade e articulação

2. Resistência e defesa do território

3. Violência estrutural e revitimização

Participantes:

  • Bernarda Pabón (CECUCOL / Minga Social Popular e Comunitária de Cali)
  • Marlene Gomez (Reflexões da Flórida / Minga Social Popular e Comunitária da Califórnia)
  • Carmen Cortés (Associação Comunitária Camino al Futuro / Minga Social, Popular e Comunitária de Cali)
  • Mateo Garcia (Rede de Jardins Agroecológicos de Cali / Minga Social Popular e Comunitária de Cali)
  • Anny Roa Pabón (CECUCOL / Minga Social Popular e Comunitária de Cali)

Questões para continuar a refletir:

Por que é essencial compreender o direito à moradia e ao território a partir de uma perspectiva de DESC (Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais) para analisar os fenômenos de desapropriação urbana? 

Qual o papel das mulheres e das abordagens comunitárias na defesa do território e na construção de modos de vida alternativos face à violência estatal?


Sessão 4: Cidade Migrante: Lutas pelo Direito à Cidade em Berlim. Um Movimento em Transformação

Concluímos a palestra com uma apresentação sobre a experiência da Ciudad Migrante em Berlim, mostrando como a comunidade latino-americana se organiza diante da exclusão urbana, da burocracia racista e da gentrificação. Esta apresentação focou em dois temas centrais:

  1. A campanha de luta pelo registo (Anmeldung) “Anmeldung für Alle” para enfrentá-lo.
  2. Barreiras e estratégias organizacionais

Participantes:

  • Judith Lippelt (Cidade Migrante – Bloco Latino-Americano de Berlim)
  • Itziar Gastaminza (Cidade Migrante – Bloco Latino-Americano de Berlim)
  • Jason Bustos (Cidade Migrante – Bloco Latino-Americano de Berlim)
  • Fernando Martinez (Cidade Migrante – Bloco Latino-Americano de Berlim)

Questões para continuar a refletir:

Que paralelos existem entre as lutas pelo direito à cidade dos migrantes em Berlim e as dos setores populares nas cidades latino-americanas?

De que forma a luta pelo registo (Anmeldung) em Berlim evidencia a ligação entre os direitos formais, a exclusão burocrática e a produção social da cidade neoliberal?