"A cooperação regional e no Sul Global está se tornando cada vez mais importante."
Transcrição da coluna de Karina Batthyány
Em InfoCLACSO – 7 de agosto de 2024
Em junho, estivemos em Bogotá, na Colômbia, no fórum organizado pela Fundació Sentit Comú de Cataluña, “Imaginando o futuro a partir do sul”, onde o Ministério da Cultura, Artes e Conhecimento da Colômbia teve uma participação relevante.
Esta iniciativa teve como objetivo principal estabelecer um fórum público que abordasse os principais desafios do nosso tempo em relação ao fortalecimento da democracia, igualdade de oportunidades, justiça social, paz, transição energética e convivência em espaços pluralistas, livres de racismo, xenofobia, classismo, sexismo ou qualquer outra forma de discriminação. Em última análise, buscou atuar em uma aliança estratégica baseada nos princípios fundadores da CLACSO, que defendemos em todas as nossas ações.
É importante lembrar que, neste ano, no âmbito do projeto de cooperação “Cidades Sem Medo: Diálogos entre a América Latina e Barcelona”, realizado pela CLACSO e pela Fundació Sentit Comú da Catalunha, trabalhamos em um relatório elaborado por uma prestigiada equipe de pesquisadores liderada por René Ramírez, coordenador do Eixo de Ciência, Tecnologia e Inovação do CRES da UNESCO e ex-Ministro da Educação Superior do Equador. O relatório, intitulado “Debates sobre Democracia e Igualdade”, visa estudar as dinâmicas econômicas, sociais e políticas que ocorrem durante este período de mudança paradigmática, cuja análise é essencial para a compreensão da direção para a qual as sociedades em que vivemos estão se encaminhando.
A simples menção dos títulos dos capítulos já basta para compreender a importância da análise e do debate propostos. Por exemplo: “Crise do Capitalismo, Democracia Sitiada e Resistência Criativa nos Longos Ciclos Políticos, Econômicos e Sociais da América Latina e do Caribe”, “Democracia em Disputa: Entre o Cerco e a Emancipação”, “Redistribuição Antidemocrática: Ideologia como Contraciclo”, “Colômbia: Esse Nó Cego Latino-Americano” e, como epílogo, “Democracia para a Vida, Democracia para a Paz como Vacina contra o Narco-Neoliberalismo Autoritário”.
Além disso, a introdução do relatório afirma que uma das características definidoras da nossa época é o fato de vivermos em sociedades cada vez mais desiguais. A desigualdade é, mais uma vez, apresentada como uma característica estrutural e histórica da nossa região. Essa desigualdade mina a coesão social, fragmentando particularmente as comunidades mais afetadas, com profundas consequências sociais, políticas e econômicas.
O relatório acrescenta ainda que a destruição social causada pela desigualdade gera desinteresse pela política, fragmentação da identidade e, sobretudo, polarização crescente, dando origem a opções reacionárias capazes de desafiar os próprios fundamentos dos sistemas democráticos em que vivemos. Nesse contexto, o relatório investiga como a disputa política entre opções progressistas e conservadoras se desenrola em um momento de crescentes tendências autoritárias em todo o mundo, tendência da qual nossa região da América Latina e do Caribe não está imune.
Nesse contexto, vale lembrar que, no final de abril deste ano, no Brasil, organizamos, em conjunto com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Fórum “As Novas Dinâmicas das Relações Sul-Sul e os Desafios da Integração Latino-Americana”, com a participação de importantes acadêmicos e membros da sociedade civil e organizações sociais, onde foram abordados temas essenciais, como “Cooperação acadêmica internacional e relações Sul-Sul”, “O novo sistema mundial” e as “Novas direções da economia mundial e do Sul global”, “Os BRICS e as novas dinâmicas das relações Sul-Sul e Norte-Sul”, a “Nova arquitetura e infraestrutura financeira global e regional para a integração”, “Rumo a uma agenda estratégica para a integração latino-americana”, “Crise climática, transição energética e a geopolítica dos recursos naturais” e “Ciência, tecnologia, inovação e industrialização: desafios e novas fronteiras”.
No contexto desse fórum, levantei a preocupação de que a integração latino-americana e caribenha ainda seja uma tarefa inacabada, o que é prejudicial em termos de desenvolvimento e fortalecimento das diversas dimensões que contribuem para o bem-estar coletivo. Se algo pode mudar o panorama da integração em nossa América, é o grande potencial que ela possui — político, cultural, econômico e devido aos seus recursos naturais estratégicos. E isso é algo reconhecido internacionalmente.
A América Latina e o Caribe possuem uma vasta riqueza de recursos naturais, incluindo minerais, petróleo, gás e uma biodiversidade única, o que a posiciona como uma região de grande interesse estratégico em nível global, e nós, que a habitamos, devemos estar cientes disso.
Nossos países estão cada vez mais interdependentes, e é impossível imaginar alternativas ou soluções para as múltiplas crises que nos afetam individualmente. Portanto, a cooperação regional e, de forma mais ampla, a cooperação com o Sul Global, tornam-se cada vez mais importantes. Isso significa que ela deve ser abordada em diferentes níveis: no nível dos Estados, das organizações internacionais e também das instituições e organizações acadêmicas, onde a CLACSO desempenha um papel de liderança com seu programa Sul-Sul. Este programa baseia-se na promoção de objetivos de desenvolvimento, fundamentados nos princípios da solidariedade, da equidade, do intercâmbio horizontal entre nossos países e na premissa da interdependência. Enfatiza também as relações horizontais com as organizações que cooperam, trabalham e são parceiras estratégicas de nossa instituição.
Este programa, que desenvolvemos no CLACSO, busca não apenas compartilhar recursos e conhecimento, mas também construir uma estrutura de cooperação baseada na equidade e no respeito mútuo, rompendo com os modelos de cooperação vertical e assimétrica que prevaleceram em outros períodos históricos. É a partir dessa perspectiva que construímos e desenvolvemos a cooperação com o Sul Global.
A base dessas colaborações é o compartilhamento de conhecimento e a implementação de diversos programas nas áreas de formação, pesquisa, publicações e comunicação. Essas atividades são essenciais para a criação de uma base de conhecimento compartilhada e o fortalecimento das capacidades locais, permitindo que os países do Sul Global enfrentem seus desafios de forma mais eficaz e autônoma.
Temos um exemplo concreto: o nosso Fórum Latino-Americano de Avaliação Científica (FOLEC), que busca estabelecer critérios de avaliação adaptados às realidades e necessidades do Sul Global, promovendo uma ciência mais inclusiva, relevante e engajada. Este fórum já conta com a participação de países do Sul Global, o apoio do Conselho Africano, do Conselho Árabe de Ciências Sociais e da Academia Chinesa de Ciências Sociais, bem como o apoio da Índia e de outras partes do Sul Global. A colaboração com essas organizações nos permite expandir essa rede de cooperação, enriquecendo a troca de conhecimentos e experiências e fortalecendo as alianças estratégicas que nos possibilitam impulsionar esse desenvolvimento conjunto.
A América Latina, devido à sua posição geopolítica, recursos estratégicos e diversidade cultural, tem um papel crucial a desempenhar na redefinição do Sul Global e na conquista de uma integração regional efetiva. Isso não só fortaleceria seu poder de negociação internacional, como também promoveria um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo para todas as regiões. A região da América Latina e do Caribe tem o potencial de se tornar líder em iniciativas globais, permitindo-lhe debater e refletir sobre esses desafios comuns, planejar ações concretas e estabelecer compromissos que nos permitam avançar nessa direção. Na CLACSO, enquadramos isso em nosso projeto estratégico mais amplo, as Plataformas para o Diálogo Social (PDS). Essas plataformas, embora priorizem questões-chave para a América Latina e o Caribe, vão muito além dessas áreas, incorporando um compromisso com o Sul Global.
– Eu estava pensando na importância multifacetada das relações Sul-Sul, incluindo tópicos como ciência aberta, a dinâmica da pesquisa e do avanço científico, e as características específicas dessa parte do mundo…
Por isso, sempre insiro esses pontos de reflexão no âmbito do nosso projeto mais amplo, as Plataformas para o Diálogo Social (PDS), que se concentra no conhecimento como um bem comum, na ciência aberta e nos benefícios desse conhecimento para todos. É por isso que defendemos com tanta veemência, nesta região do mundo, o progresso não apenas nos diagnósticos, mas também na transformação das práticas científicas.
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