Breve resposta ao Professor Moisés Wasserman
Arturo Escobar
Antropólogo colombiano
Escrevo esta breve nota com respeito ao Professor Wasserman como cientista, mas com profunda discordância em relação à sua visão ultrapassada da ciência, que deriva de uma leitura tendenciosa e distorcida da minuta do Pacto Histórico referente à sua política de ciência e tecnologia. Para começar, o Professor Wasserman omite o fato de que o documento que critica recomenda o apoio à Missão dos Sábios (da qual o próprio Professor Wasserman foi membro), o fortalecimento do sistema de pesquisa existente e sua rede de universidades, o apoio ao desenvolvimento de economias produtivas para o bem-estar e a busca das melhores condições para a sustentabilidade ambiental e as transições energética e alimentar, entre muitos outros objetivos amplamente aceitos diante da crise atual.
A Missão dos Sábios é um grupo de especialistas que iniciou suas atividades em 2019, abrangendo diferentes áreas do conhecimento, com o objetivo de “Contribuir para a construção e implementação de políticas públicas em Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação e para as estratégias que a Colômbia deve construir a longo prazo, para responder aos desafios produtivos e sociais de forma escalável, replicável e sustentável”.
O professor se incomoda com a menção de "bem-viver" quatorze vezes, mas não percebe que "inovação", um conceito central na ciência contemporânea, é mencionada dezenove vezes. É preciso questionar: inovação para quê? A ciência contemporânea já não se faz essa pergunta. Ela parte do pressuposto de que toda inovação visa ao "progresso", medido em termos materiais, consumo e crescimento ilimitado. Essa noção economicista e competitiva de ciência e tecnologia, questionada pelo documento, está destruindo o planeta.
O veredito sobre a “ciência universal” (sim, a ciência hegemônica) e as sociedades que ela construiu já foi expresso inúmeras vezes. O filósofo Walter Benjamin o proclamou diante da ascensão do nazismo: “Não existe documento da civilização que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie”. Para Michel Foucault, o nacional-socialismo não foi uma aberração temporária da civilização ocidental, mas o resultado de sua racionalidade calculista. A visão de mundo moderna, baseada na racionalidade científica pós-renascentista, foi parte integrante da conquista, do colonialismo, do tráfico de escravos e, hoje, do terricídio, além de ser uma das causas do descontentamento com a vida sentido pelos jovens atualmente, fomentado pelas monoculturas digitais e por economias sem futuro para a maioria. Não há mais como esconder essa realidade apelando para suas muitas conquistas impressionantes. Basta de celebrar os grandes avanços da ciência sem apontar sua responsabilidade por suas inúmeras aplicações destrutivas! É necessária uma transição gradual para outros modos de vida, onde os seres humanos possam, mais uma vez, coexistir de forma mutuamente enriquecedora entre si e com a Terra. Buen Vivir (Bom Viver) e Vivir Sabroso (Viver Bem) são expressões dessa ideia e já contam com alguma repercussão acadêmica e política.
A ciência e a tecnologia devem desempenhar um papel central nessas transições, mas não podem continuar a depender de epistemologias do século XVII e glórias do século XX. É por isso que a grande maioria das soluções propostas por cientistas e governos para lidar com as mudanças climáticas se tornaram, claramente, parte do problema. O Pacto Histórico propõe a construção de uma ciência e tecnologia para o século XXI que subordine a ciência, a tecnologia e a economia à defesa da vida e ao bem-estar de todos, em vez da acumulação, como sempre foi o caso.
É necessário situar as propostas do Pacto Histórico em seu contexto histórico e filosófico mais amplo para compreender o que está verdadeiramente em jogo. Estamos testemunhando um amplo processo de desafios civilizacionais que buscam superar a hegemonia do modelo ocidental, sem desconsiderar suas conquistas mais importantes, mas reorientando-as para servir à vida e à Terra, priorizando os grupos que mais sofreram com as consequências desse modelo: os marginalizados. Isso não acontece apenas na Colômbia; é um fenômeno global. No âmbito governamental, a Colômbia está na vanguarda. Lemos, no início do Programa de Governo 2022-2026, Colômbia: Potência Mundial para a Vida, que o programa “é concebido como o início de uma transição que, num futuro próximo, possibilitará uma vida digna, a superação da violência e a justiça social e climática, consolidando as condições permanentes para uma paz duradoura que permitirá a toda a sociedade colombiana uma segunda chance na Terra” (p. 6, grifo nosso).
Ousemos considerar o Programa do Pacto Histórico como uma porta de entrada para as transições socioecológicas idealizadas por tantos movimentos sociais e intelectuais da atualidade. Ninguém menos que o venerado mestre budista Thich Nhat Hanh nos convida a meditar ativamente sobre o fim do projeto civilizatório ocidental: “Nossa civilização terá que terminar um dia. Mas temos um papel importante a desempenhar na determinação de quando ela terminará e com que rapidez. [...] Ao inspirar, sei que esta civilização vai morrer. Ao expirar, sei que esta civilização não pode escapar da morte.” É necessário pensar nas transições dentro desse horizonte histórico para evitar as interpretações limitadas frequentemente oferecidas pela ciência e economia convencionais, que nos aprisionam em leituras reducionistas do Programa e, assim, perpetuam o horror insustentável do estado atual das coisas.
A dificuldade em falar de um horizonte de mudança como esse reside no fato de a história ser tendenciosa contra tudo o que é alternativo ou diferente. É muito mais fácil repetir a história familiar — baseada na noção normativa ocidental de humanidade como naturalmente secular, liberal, racional, individualista e competitiva, branca e masculina, e separada da natureza — do que expressar uma ideia genuinamente nova. Por quê? Porque essa visão de mundo dominante se baseia em vários séculos da chamada modernidade. É a partir dessa história que os poderosos imperializam seus desejos e projetos, que são considerados "a verdade" das coisas. Ir contra a corrente dessa história é extremamente difícil, já que ela nos fornece as categorias com as quais pensamos, sentimos e vivemos. Outras Colômbias são possíveis, mas isso exige uma reorientação substancial da ciência e da tecnologia, a inclusão do conhecimento e da sabedoria de povos sistematicamente desacreditados pela ciência (justiça epistêmica) e a invenção de novos conhecimentos que ainda não imaginamos. O que está em jogo, em última análise, é uma reinvenção necessária da humanidade e do sentido da vida.
Uma breve nota de rodapé: No início da década de 80, enquanto cursava doutorado na Universidade da Califórnia, Berkeley, assisti a um dos seminários do grande filósofo da ciência Paul Feyerabend, um dos professores mais populares de Berkeley na época e alvo frequente da coluna do Professor Wasserman. Entre muitas outras coisas, ele ensinava que não existe uma metodologia universalmente válida e que, portanto, a ciência deve ser regida por uma epistemologia aberta. Para Feyerabend, a ciência moderna não é superior às outras, e o método racionalista não é o único possível; portanto, não podemos continuar a desconsiderar outras formas de conhecimento. Muitos o consideravam um inimigo da ciência, mas a lição de sua filosofia é que a ciência deve ser profundamente pluralista. Como deveria ser a ciência em uma sociedade livre? Essa é a questão que esse filósofo nos deixou, e que o Pacto Histórico parece estar retomando agora.
16 de julho de 2022.