Brasil, o triunfo da democracia

 Brasil, o triunfo da democracia

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, no domingo, 25 de outubro, representa um triunfo estratégico para a democracia, a justiça social e a soberania popular contra o avanço dos modelos neoliberais e da extrema-direita autoritária. Significa a continuidade de um projeto de Estado comprometido com a erradicação da fome e da desigualdade, a proteção do meio ambiente e da floresta amazônica e a garantia dos direitos fundamentais em um país marcado por profunda polarização social e política.

Em nível regional e para os BRICS, esta vitória mantém o Brasil como um ator central e indispensável para reativar a integração latino-americana e caribenha, bem como a do Sul Global, a partir de uma abordagem multipolar, solidária e soberana.

A CLACSO aplaude o feito nas urnas do povo brasileiro, que redobrou seu ativismo após um primeiro turno eleitoral favorável à proposta de extrema-direita e por ter erguido a bandeira da soberania contra a interferência estrangeira que vem causando tantos danos às democracias de nossa América.


Análises pré-eleitorais dos membros da Rede CLACSO antes do segundo turno das eleições, no domingo, 25 de outubro.


Brasil 2026 em debate: ganhos sociais, ameaças regressivas e disputa de significado

Pablo Vommaro , diretor executivo do CLACSO, analisa as implicações políticas, sociais e geopolíticas das eleições presidenciais no Brasil. Com quase 160 milhões de cidadãos aptos a votar em uma disputa polarizada entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro (candidato do Partido Liberal e filho de Jair Bolsonaro), o dia da eleição transcende as fronteiras locais para se tornar um momento decisivo no equilíbrio de poder em toda a região.

Vommaro denuncia abertamente a interferência e as manobras intervencionistas promovidas pelo governo dos EUA de Donald Trump, juntamente com figuras como Marco Rubio, com o objetivo de influenciar os resultados eleitorais. Entre essas pressões diretas, o diretor-executivo da CLACSO cita a aplicação arbitrária de sanções e barreiras comerciais — como a imposição de tarifas sobre as exportações brasileiras —, os ataques e o assédio contra o sistema público de pagamentos Pix para favorecer interesses financeiros corporativos e as constantes ameaças legislativas e judiciais. Diante dessas agressões, ele destaca análises de inteligência estratégica que posicionam o Brasil como a nação com maior grau de soberania e capacidade de contrapeso autônomo à tutela de Washington.

No tabuleiro geopolítico, Vommaro enfatiza o papel do Brasil como uma das dez maiores economias do mundo e o segundo maior detentor global de elementos de terras raras. Em um subcontinente cada vez mais moldado por projetos autoritários e regressivos, a continuidade do projeto democrático representa um baluarte crucial contra um ressurgimento da Doutrina Monroe e a subordinação da região a um "quintal". Ele também destaca a trajetória diplomática de Lula na união do Sul Global, na consolidação do BRICS+, na revitalização do Mercosul e da CELAC, e seu papel de pacificador em disputas de fronteira, como as entre Guiana e Venezuela.

Ao avaliar o desempenho do governo, Vommaro detalha as conquistas estruturais dos últimos quatro anos: a redução de 14 milhões de pessoas vivendo na pobreza, a histórica saída do Brasil do mapa da fome da FAO, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), a reforma tributária progressiva que reduziu os impostos para os trabalhadores ao tributar as grandes corporações e a drástica paralisação do desmatamento na Amazônia para retomar a liderança em sustentabilidade climática.

Em contrapartida, alerta para a plataforma de extrema-direita expressa no documento programático "Para o Brasil Superar o Atraso", que aprofunda o modelo neoliberal herdado de Jair Bolsonaro e espelha as políticas de austeridade e concentração de Javier Milei. Se implementado, esse esquema implicaria o desmantelamento de conquistas históricas por meio do congelamento do salário mínimo, cortes em benefícios para idosos e pessoas com deficiência, restrições a programas como o Bolsa Família, enfraquecimento de políticas de igualdade racial e indígena e entrega da soberania sobre recursos naturais e energia ao capital concentrado.

Diante do paradoxo de uma disputa eleitoral acirrada apesar dos indicadores socioeconômicos esmagadores, o representante da CLACSO explica como opera a máquina da desinformação em massa, como a agenda da violência e da insegurança é explorada e como se constrói uma polarização afetiva e emocional que distorce o debate racional. Nesse sentido, ele convoca os movimentos populares e as ciências sociais a fortalecerem a luta por significado para engajar a grande maioria.

Por fim, Vommaro apresenta o livro de acesso aberto da CLACSO: “ O País em Debate: Brasil 2026. Entre o Dilema Interno e a Nova Ordem Mundial ”, coordenado por Wagner Iglecias . A obra reúne diversas entrevistas com figuras proeminentes da cultura, da política e da academia brasileiras para oferecer uma análise rigorosa das últimas duas décadas do país — desde os primeiros mandatos do PT, o golpe parlamentar e as guerras jurídicas, até os desafios contemporâneos e os horizontes emancipatórios —, consolidando-se como uma ferramenta indispensável contra a manipulação midiática.


Manifesto Latino-Americano e Caribenho em apoio a Lula e ao povo brasileiro
A proposta recebeu mais de 5.000 assinaturas de apoio.

O que está em jogo não é apenas quem governará o Brasil nos próximos quatro anos. É a democracia. É a justiça social. São direitos conquistados com muita luta. É a proteção ambiental. É a soberania sobre os recursos naturais. É o lugar do Brasil na América Latina e no mundo…

Por todas essas razões, não podemos permanecer indiferentes à possibilidade de Flávio Bolsonaro vencer as eleições. Sua candidatura está intrinsecamente ligada à história política de sua família e ao governo de seu pai, Jair Bolsonaro, que, ao deixar a presidência, deixou um legado de polarização, declínio institucional e econômico e conflitos sociais sem precedentes na história recente.


"Uma luta desigual": Desinformação, ascensão da extrema direita e resistência popular no Brasil.

Silvia Borelli , pesquisadora e representante do Comitê Diretivo da CLACSO para o Brasil, analisa a encruzilhada política, social e regional que o país enfrenta na corrida eleitoral. Em um contexto internacional marcado pela ascensão da extrema direita e pelo ressurgimento conservador no continente, a eleição brasileira se posiciona como um ponto crucial: um bastião da resistência popular ou um fator de validação da ofensiva reacionária na América Latina e no Caribe.

Borelli alerta para as implicações do projeto liderado por Flávio Bolsonaro, caracterizado pela sua aberta subordinação aos interesses dos EUA, pela adoção do modelo punitivo e focado na segurança de Nayib Bukele e pela intervenção direta de figuras da extrema-direita como Donald Trump e Javier Milei. Esse cenário, enfatiza ele, representa uma ameaça direta às ciências sociais, à produção de conhecimento crítico e à autonomia universitária, repetindo o desmantelamento das políticas públicas e da integração vivenciado durante o governo de Jair Bolsonaro.

Com base em sua pesquisa sobre a juventude, a especialista desmistifica as narrativas que tentam culpar as gerações mais jovens pela ascensão da extrema direita. Ela explica que a faixa etária de 16 a 34 anos — juntamente com mulheres e idosos — representa quase 40% dos eleitores indecisos. Longe de ser apático, esse setor expressa profundo descontentamento com as formas tradicionais de representação partidária, afetado pelo desemprego e em parte seduzido pelas promessas do empreendedorismo, mas também fortemente mobilizado por demandas por justiça climática, lutas antirracistas e movimentos dissidentes que reivindicam novas práticas horizontais.

Por fim, a entrevista se concentra na acentuada assimetria que define a batalha das narrativas. De um lado, está a concentração da mídia tradicional que distorce a agenda pública; do outro, a atuação de milícias digitais que operam com inteligência artificial, notícias falsas e fundamentalismo religioso, articulando centenas de contas irregulares para distorcer a disputa eleitoral. Diante desse ecossistema algorítmico, Borelli reafirma a centralidade estratégica do ativismo nas ruas, da comunicação comunitária e da defesa inabalável da comunidade local.


Por que a extrema-direita atrai a maioria?

Beto Vasques , diretor de Relações Institucionais do Instituto Democracia em Cheque e coordenador do Laboratório de Opinião Pública da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP), analisa o complexo cenário político que o Brasil enfrenta e seu impacto em toda a América Latina.

Durante a entrevista, Vasques analisa o paradoxo do governo Lula da Silva, que ostenta indicadores econômicos e de emprego recordes, em contraste com uma extrema-direita que, mesmo com suas principais figuras sob investigação e seus problemas fundamentais não resolvidos, mantém uma base eleitoral competitiva e forte apoio popular. O especialista alerta para a aliança entre líderes autocráticos e magnatas digitais, o uso de campanhas de desinformação e a coordenação regional de estratégias de interferência geopolítica.

O livro também explora os desafios do progressismo contemporâneo: a urgência de superar discursos ultrapassados, empreender reformas radicais em áreas sensíveis como segurança cidadã e corrupção judicial, e desafiar o senso comum por meio da empatia cotidiana e de novas formas de construir um senso de pertencimento coletivo.


"A onda azul não é genuína, é fabricada": eleições no Brasil, desinformação e o futuro da América Latina

Monica Valente , diretora da Fundação Perseu Abramo, secretária-executiva do Foro de São Paulo e figura chave da política brasileira, analisa em profundidade o cenário político às vésperas de eleições decisivas para o Brasil e para toda a América Latina e Caribe.

Valente aprofunda-se no conflito estrutural entre a soberania popular e a subordinação autoritária. Ele explica como a extrema-direita se transformou após a desqualificação e condenação de Jair Bolsonaro e de altos oficiais militares, bem como os novos e sofisticados esquemas algorítmicos de desinformação (colabs) que operam nas sombras dos marcos regulatórios. Ele também examina os interesses coloniais em elementos de terras raras e minerais críticos, desmistifica a suposta espontaneidade da "onda azul" na região e defende a integração energética e econômica por meio dos BRICS como o caminho essencial para o desenvolvimento soberano e multipolar.

Uma conversa inevitável para entendermos o que está em jogo no gigante do Sul e suas repercussões nas lutas democráticas de nossa América.


Lula versus Bolsonaro: Por que bons dados econômicos não garantem a eleição?

O que está realmente em disputa nas eleições presidenciais brasileiras e qual o impacto desse resultado para o futuro da América Latina e do Caribe?

Nesta edição especial da CLACSO TV, conversamos com Josué Medeiros – cientista político, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diretor da Fundação Lauro Campos, e Marielle Franco, coordenadora do Observatório Político Eleitoral (OPEL).

Medeiros analisa a persistência da polarização política entre o campo democrático e a direção extremista representada pela candidatura de Flávio Bolsonaro, os limites impostos pelo caos institucional e a complexa dinâmica do “antissistema difuso” – o que explica por que a inflação permanece e o crescimento dos negócios não se converte automaticamente em perda de votos para o governo.

Uma conversa profunda sobre o papel do Congresso Nacional, as respostas progressistas à segurança pública e ao combate aos feminicídios, juntamente com o dilema geopolítico crucial: a preservação de um Brasil soberano, integrado ao Mercosul e ao BRICS, diante do risco de subordinação aos diretores de segurança dos Estados Unidos.


Inteligência Artificial, Redes Sociais e Desinformação: Os Desafios da Regulação no Brasil

Como um país com mais de 200 milhões de habitantes enfrenta o crescente impacto da inteligência artificial, dos algoritmos de plataformas digitais e da manipulação eleitoral? Nesta entrevista, conversamos com Vinicius Padrão , advogado, pesquisador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) e professor da UERJ, sobre o momento regulatório e democrático vivido pelo Brasil.

Padrão analisa a singularidade de um gigantesco mercado consumidor de dados, onde a desigualdade de acesso – acentuada pelas práticas de *zero-rating* – confronta a forma como grande parte da população está cercada por aplicativos de mensagens sem acesso à internet para verificar a veracidade de deepfakes e notícias falsas.

Além disso, o pesquisador debate o papel do Supremo Tribunal Federal e da Justiça Eleitoral em não confrontar os abusos tecnológicos, a aplicação da Lei de Proteção à Criança e ao Adolescente (ECA Digital) na proteção de crianças e adolescentes e a importância de se adotar uma regulamentação baseada em princípios e valores constitucionais, inspirada no Marco Civil da Internet, evitando regulamentações excessivamente detalhadas que possam sufocar a inovação no país.


O que está em jogo em um Brasil polarizado? – InfoCLACSO, 30 de setembro

O segundo turno das eleições ocorre em um contexto de alinhamento da oligarquia latino-americana com os Estados Unidos, em grande parte devido à interferência de Trump nas eleições realizadas durante seu segundo mandato em diversos países da região. Desta vez, ele já anunciou sua preferência por Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe em janeiro de 2023.

A análise de:
-Pablo Vommaro, Diretor Executivo da CLACSO
-Silvia Borelli, membro do Comitê Diretivo da CLACSO para o Brasil
–Mônica Valente, Diretora da Fundação Perseu Abramo, Secretária Executiva do Foro de São Paulo e membro da Coordenação da Campanha Lula 2026
-Luyara Franco, Instituto Marielle Franco, Brasil
-Beto Vasques, Diretor de Relações Institucionais do Instituto Democracia em Xeque e Coordenador do Laboratório de Opinião Pública da Escola de Sociologia e Política de São Paulo
-Daniela Silva, Diretora Executiva da CTRL+Z Brasil
–Josué Medeiros, cientista político brasileiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenador do Observatório Político e Eleitoral e diretor de Formação e Pesquisa da Fundação Marielle Franco
-Matías Bianchi, Presidente da Associação Argentina de Avaliação e coordenador do projeto +Digital em Assuntos do Sul
Oliver Kornblihtt, Midia Ninja, um veículo de mídia independente e autogerido, formado por jovens ativistas brasileiros a partir de 2011 como alternativa à imprensa tradicional.
–Edna Castro, Professora Emérita da Universidade Federal do Pará. Entrevista concedida no âmbito do XXXV Congresso Latino-Americano de Sociologia, no Rio de Janeiro, intitulado “Entre a policrise e as alternativas: horizontes da sociologia crítica latino-americana”.