Bem-vindo ao Lawfare

 Bem-vindo ao Lawfare

“Bem-vindo à Guerra Jurídica: Um Manual de Passos Básicos para Demolir o Direito Penal”, um livro recém-publicado pela Capital Intelectual, foi escrito em coautoria por Eugenio Raúl Zaffaroni, Juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos; Cristina Caamaño, ex-procuradora e chefe da Agência Federal de Inteligência da Argentina; e Valeria Vegh Weis, professora e pesquisadora do CLACSO-UBA. Os posfácios são do sociólogo e cientista político Atilio Boron e de Eli Gómez Alcorta, primeira Ministra da Mulher, Gênero e Diversidade da Argentina. O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, vítima por excelência da guerra jurídica, escreveu o seguinte prefácio:

Os autores, três renomados professores da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, por meio da escrita de um “Manual de Passos Básicos para Demolir o Direito Penal”, conseguiram analisar em profundidade um fenômeno que, apesar de ser mundial, vem se desenvolvendo sistematicamente e com uma frequência indesejável na América. América Latina: o uso do judiciário, especialmente no que diz respeito à aplicação do direito penal, para interferir na política.

Isso é guerra jurídica, uma guerra legal com objetivos ilegítimos. como meus advogados argumentaram em 2016. As elites da nossa região e os defensores dos interesses do capital instituições financeiras internacionais, com as quais eles têm lutado há décadas políticas sociais destinadas a erradicar a pobreza e para reduzir as profundas desigualdades sociais, que têm Isso visa promover a corrupção à categoria de “mal cósmico”, apontando para isso como a origem e a causa de todos os males. É claro que ninguém aprova a existência de governantes. corrupto. Mas a luta contra a corrupção nada mais é do que o pretexto que esses setores usam para atacar governos legitimamente eleitos pelo voto popular.

Os tribunais tornaram-se a arena onde os derrotados nas urnas procuram impor os seus próprios interesses sobre a soberania popular. Por meio disso, certos setores do judiciário e vários órgãos do sistema de justiça, com o apoio oportunista dos principais meios de comunicação, passaram a atacar governos populares preocupados com a defesa dos interesses nacionais. O seu objetivo é criminalizar e destruir a política, tentando incutir na sociedade a ideia de que todos os políticos são corruptos. Uma vez que a destruição física do adversário já não é considerada apropriada nos dias de hoje, o que se deseja é a sua ruína jurídica e política.

Sob o pretexto de combater a corrupção, violam o princípio legal do devido processo legal e as garantias constitucionais do acusado. Como apontam os autores deste livro, a série de casos ocorridos em diversos países da nossa região demonstra consistentemente o mesmo método: um segmento da imprensa politicamente engajado fabrica uma história e a dissemina amplamente (uma mentira repetida mil vezes acaba sendo aceita como "verdade"); baseando-se exclusivamente nessa notícia fabricada, a polícia judiciária abre um inquérito; o Ministério Público busca provas para fundamentar formalmente a acusação; mesmo quando nenhuma prova é encontrada, o caso muitas vezes prossegue, como aconteceu no Brasil, sob a alegação de que "não tenho provas, mas estou convencido". Resta então "identificar alguns juízes dispostos a cooperar", seja porque vislumbram a tão desejada oportunidade de ascensão social, seja porque vislumbram uma vantagem pessoal concreta. A vida privada e a privacidade dos acusados ​​são expostas diariamente por meio dos chamados "vazamentos", termo usado para disfarçar a operação de selecionar astutamente um ou mais fatos e transmiti-los intencionalmente a "colegas" da mídia, especialmente na televisão. Diante da impossibilidade de provar o que não aconteceu, utilizam-se escutas telefônicas ilegais, intimações coercitivas e prisões preventivas, tanto dos acusados ​​quanto de seus familiares. Esses são os mecanismos empregados para alcançar o objetivo de obter um "acordo de delação premiada" do "arrependido" (como são chamados nos países de língua espanhola aqueles "capazes de fabricar qualquer situação para obter um benefício"), para quem a "recompensa" é a própria liberdade e, pelo menos no Brasil, a chance de ficar com boa parte do produto do crime confessado. Assim, a confissão incriminatória é extraída, mesmo sem a menor prova, e o acusado é condenado em um julgamento baseado unicamente em evidências. Se o suposto ato não puder ser comprovado, invoca-se a absurda categoria de "ato indeterminado". A farsa se completa com o veredicto de culpado, que será confirmado por um tribunal igualmente parcial e subserviente aos interesses políticos e econômicos das classes dominantes.

Assim se garantem as condições legais para aprisionar o inimigo e impedi-lo de participar da vida política. Os principais meios de comunicação, com a televisão à frente, transmitem incessantemente a decisão judicial, prontos para legitimar um processo totalmente fraudulento. Com o inimigo removido da arena política, o caminho fica livre para a eleição de homens e mulheres para o governo, comprometidos com os interesses do mercado e que negligenciam a proteção da população, especialmente dos mais pobres. A soberania nacional é violada por meio da venda de grandes empresas públicas, sempre leiloadas a preços muito abaixo de seu valor real, em transações que revelam um profundo desrespeito ao meio ambiente e a tantos outros direitos básicos da população.


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