"A Sala de Aula CLACSO busca inovar as formas como o ensino e a aprendizagem acontecem."

 "A Sala de Aula CLACSO busca inovar as formas como o ensino e a aprendizagem acontecem."

Transcrição da coluna de Karina Batthyány
Em InfoCLACSO – 27 de setembro de 2023

Hoje, o tema central do InfoCLACSO é dedicado à decisão do Supremo Tribunal Federal do Brasil, contrária à tese do “cronograma”, proferida em 21 de setembro, rejeitando-a por 7 votos a 2 (com outros 2 pendentes).

A tese do “cronograma” é utilizada por entidades rurais associadas ao agronegócio e implica o reconhecimento das terras indígenas apenas àquelas que foram ocupadas por eles até 5 de outubro de 1988, data em que a Constituição brasileira foi promulgada.

A tese do "período temporal" surgiu de uma decisão do Supremo Tribunal Federal de 2009, em meio ao conflito sobre a demarcação do Território Indígena Raposa Serra do Sol. Naquela ocasião, sob intensa pressão do setor agroindustrial, o Supremo Tribunal Federal sugeriu um "período temporal" como condição, definindo as ocupações indígenas até 5 de outubro de 1988. Como se tratava de uma decisão sobre um caso específico, não poderia ser aplicada a outros.

Contudo, após o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, os proprietários rurais conseguiram aprovar medidas cautelares por meio da Procuradoria-Geral da República que transformaram essas condições em elementos juridicamente vinculativos. A partir de então, o "prazo" passou a ser utilizado como argumento geral em outros casos; ou seja, adquiriu o status de tese jurídica.

As comunidades indígenas sustentam que o argumento do "prazo temporal" é inconstitucional porque a Constituição garante o direito dos povos indígenas às suas terras, um direito que antecede a criação do Estado brasileiro. Especificamente, o Artigo 231 da Constituição define terras indígenas como aquelas "permanentemente habitadas, utilizadas para atividades produtivas e essenciais para a preservação dos recursos ambientais", bem como para "os costumes e tradições" desses povos.

Ainda faltam dois votos do Supremo Tribunal Federal. Os dois votos que apoiaram a petição de latifundiários rurais e do setor agroindustrial foram proferidos por ministros nomeados durante o mandato de Bolsonaro: o jurista e pastor presbiteriano André Mendonça e Nunes Marques.

Embora a Suprema Corte Federal tenha formado uma maioria para rejeitar a regra do "prazo", o julgamento não terminou. Os juízes devem discutir soluções para terras específicas em disputa e soluções para pessoas "não indígenas" que atualmente ocupam áreas pertencentes a povos indígenas que, segundo se considera, as adquiriram "de boa-fé".

A compensação para os povos indígenas também será considerada caso não seja possível conceder a área reivindicada. As soluções deverão ser discutidas após a votação dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o "cronograma".

Segundo dados oficiais, o Brasil possui pouco mais de um milhão de indígenas, que ocupam cerca de 14% do território nacional, representados por cerca de 500 áreas já delimitadas, às quais se somam outras 200 que ainda estão sendo analisadas pelas diversas instituições estatais.

A demarcação de terras indígenas é uma obrigação constitucional do Estado, mas foi suspensa entre 2019 e 2022, durante o governo do então presidente Jair Bolsonaro. Foi retomada este ano pelo governo Lula da Silva, que se opõe à noção de um "prazo" e tem o primeiro gabinete no Brasil a incluir um Ministério dos Povos Indígenas.

Por fim, segundo a ONG Instituto Socioambiental, quase um terço das mais de 700 reservas indígenas no Brasil – a maioria delas na Amazônia e consideradas uma barreira contra o desmatamento – estavam ameaçadas pela regra do “prazo determinado”, pois ainda não haviam sido demarcadas.

– Neste caso específico, existe uma decisão judicial, mas sem qualquer impulso proveniente da criação do Ministério dos Povos Indígenas, parece muito improvável que tenha havido progresso, a menos que haja um retrocesso e um avanço contra os povos indígenas…

– Absolutamente. Existe um fator associado à decisão e à vontade política de abordar as dimensões da desigualdade, neste caso as desigualdades ligadas precisamente aos povos indígenas no Brasil e também na América Latina e no Caribe, onde as políticas públicas promovidas nessa área são importantes e possuem definições claras para tentar mitigar ou superar essas dimensões da desigualdade.


Sala de aula CLACSO

Além disso, gostaria de aproveitar esta oportunidade para apresentar uma nova iniciativa de formação na área das ciências sociais e das humanidades críticas. Ela está aberta a toda a comunidade CLACSO e a qualquer pessoa interessada em aprimorar seus conhecimentos, e estará disponível a partir de 1º de outubro. Demos a ela o nome de AulaCLACSO.

Gostaria de destacar especialmente o trabalho da equipe de formação da CLACSO, que trabalha constantemente em conjunto para desenvolver novas propostas que tornem realidade uma formação ampla e diversificada nas ciências sociais. Nesse sentido, a AulaCLACSO é a primeira plataforma de formação autodirigida com foco nas ciências sociais e humanas da América Latina e do Caribe a partir de uma perspectiva crítica.

A AulaCLACSO visa inovar os métodos de ensino e aprendizagem, oferecendo mais de 200 aulas de alta qualidade nos próximos meses, com novas aulas sendo adicionadas semanalmente. Esta plataforma de treinamento permite que você acesse as aulas quando e onde quiser. A AulaCLACSO oferece aprendizado autodirigido, para que todos possam explorar o conteúdo no seu próprio ritmo.

Esta iniciativa complementa a oferta acadêmica existente da CLACSO, ampliando as oportunidades de formação para toda a comunidade e incorporando uma nova modalidade em comparação com a gama que oferecemos até agora, como seminários, diplomas, especializações e mestrados. A plataforma oferecerá um conjunto de aulas gratuitas e de acesso livre, e outro conjunto de aulas acessíveis apenas por assinatura, a um custo baixo de US$ 5 por mês.

A iniciativa visa continuar crescendo, convidando figuras de destaque nas ciências sociais da região e do mundo para participar. Novos conteúdos serão adicionados mensalmente, multiplicando as vozes e ampliando as perspectivas e os temas disponíveis para os usuários explorarem e aprenderem nesta nova plataforma AulaCLACSO.

Temos grandes expectativas quanto à forma como esta nova proposta será recebida. Esperamos também que ela nos permita alcançar públicos além daqueles com quem já trabalhamos na formação no CLACSO, e transformar a AulaCLACSO num espaço de formação para um público muito mais amplo. Para nós, a AulaCLACSO é uma iniciativa de inovação pedagógica para continuarmos a construir esta grande comunidade de diálogo e aprendizagem que é o CLACSO.

Nesta primeira etapa, lançaremos os seguintes programas:

– “Conceitos”, onde figuras de destaque da região abordarão conceitos-chave nas ciências sociais e humanas por meio de três dimensões: sua genealogia, os principais debates epistemológicos e metodológicos e suas abordagens empíricas.

– “Uma questão coletiva”, na qual, partindo de uma pergunta provocativa, especialistas de diferentes áreas do pensamento crítico no campo social nos acompanham para testar possíveis respostas e novas questões que possam surgir em torno dela.

– “Como escrever uma tese?”, que abrange tudo, desde a escolha do tema da pesquisa, a construção do problema (conceitual e empírico) até o desenvolvimento dos objetivos e a elaboração da própria tese.

Haverá também um ciclo ligado ao programa “40-50-50”, que apresenta uma revisão dos eventos da história contemporânea da América Latina que moldam os desafios atuais na busca por alternativas para fortalecer a democracia, os direitos humanos e o trabalho com a memória coletiva.

A partir desta estreia, adicionaremos novos ciclos como “Perspectivas Latino-Americanas sobre o Cuidado”, “Perspectivas Latino-Americanas sobre Movimentos Sociais e Ativismos”, “Transições Justas na América Latina” e um ciclo ligado ao arquivo: um conjunto de conteúdos produzidos pelo CLACSO no passado, selecionados e apresentados a partir de questões do presente.

Estamos muito entusiasmados em lançar esta nova iniciativa educacional chamada AulaCLACSO, uma comunidade de aprendizagem com conteúdo exclusivo criado por cientistas sociais e profissionais das humanidades comprometidos com a nossa região da América Latina e do Caribe. Esta iniciativa inova nos formatos pedagógicos e na forma como aborda as diversas questões que atualmente desafiam o pensamento crítico social na América Latina.


A nova plataforma “Sala de Aula CLACSO”


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