"Garantir a sustentabilidade da ciência e dos livros é uma missão pública."

 "Garantir a sustentabilidade da ciência e dos livros é uma missão pública."

O diretor editorial do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO), Fernanda Pampín, participou do Seminário Internacional «Desafios da publicação universitária por instituições públicas«, um encontro que reuniu representantes de universidades e organizações culturais da América Latina para discutir o papel das publicações universitárias na circulação do conhecimento e no fortalecimento da vida cultural e democrática da região.»

El seminário, desenvolvido no Prédio principal da Universidade do ChileIsso permitiu um entendimento compartilhado sobre como as instituições públicas podem gerenciar melhor sua produção intelectual diante da hegemonia do mercado editorial comercial. Nesse contexto, o encontro serviu como um fórum para a troca de experiências de gestão e a definição de estratégias.

A delegação internacional contou com a participação de Fernanda Pampín, doutora em Literatura e bacharel em Artes pela Universidade de Buenos Aires (UBA) e diretora editorial do CLACSO, que participou do Tabela 1: Papel e missão das publicações universitárias em instituições públicas. Durante sua apresentação, a editora abordou o papel das editoras acadêmicas como plataformas soberanas que devem garantir uma circulação de conhecimento mais inclusiva e equitativa.

Nesta entrevista concedida durante sua passagem pela Universidade do Chile, Pampín aprofunda-se na necessidade de consolidar redes de cooperação regional, defendendo a publicação universitária como um "canal de extensão cultural que conecta a universidade com a sociedade e os territórios".

— O que significa para você visitar o Chile e, especificamente, uma instituição pública, estatal, comprometida com o desenvolvimento social como a Universidade do Chile? 

Esta visita institucional é extremamente significativa, visto que a integração regional, a cooperação e o fortalecimento dos laços interinstitucionais são pilares fundamentais do nosso trabalho. Atualmente, estamos implementando um acordo-quadro assinado pelo nosso diretor executivo e pelo Reitor da Universidade do Chile, que nos permitirá trabalhar em conjunto em áreas estratégicas como formação de pós-graduados, pesquisa, publicações e extensão. Há inúmeros projetos em andamento e um enorme entusiasmo para concretizar essas iniciativas.

— Por que alianças estratégicas, como a estabelecida entre a CLACSO e a Universidade do Chile, são tão fundamentais? 

Nossa aliança é extremamente significativa porque a Universidade do Chile possui o maior número de centros membros associados à nossa rede, dentre todas as instituições do país. A CLACSO é uma rede que reúne quase mil centros de ensino e pesquisa em 56 países, principalmente na América Latina e no Caribe. Ter uma presença tão forte nesta universidade nos motiva a expandir nossas oportunidades de colaboração e fortalecer o que podemos construir juntos. 

— Qual a relevância de estabelecer vínculos formais com instituições públicas na região?

Na CLACSO, estamos promovendo um projeto institucional de grande escala chamado Plataformas para o diálogo social. Seu objetivo central é construir pontes sólidas entre a academia, a formulação de políticas públicas, as instituições estatais e os movimentos sociais. Acreditamos firmemente no pensamento crítico e transformador, e entendemos que ele só surge da articulação e da união de todos esses atores sociais. 

— Quais são as prioridades atuais em termos de publicações da CLACSO?

Acreditamos que as editoras universitárias, e a CLACSO como uma rede de redes, desempenham uma função estratégica que o mercado editorial privado não pode ou não quer assumir. Essa função é a de legitimar o conhecimento situado e produzido na América Latina e no Caribe, tanto em espanhol quanto em português. Interessa-nos estabelecer nossas línguas como línguas da ciência diante da dominância anglo-saxônica do Norte Global. Isso se relaciona à democratização do conhecimento e à bibliodiversidade, resgatando a produção em áreas frequentemente sub-representadas nos circuitos comerciais, como as humanidades, as artes e as ciências sociais.

— Qual é o objetivo e a relevância de universidades públicas decidirem editar e publicar livros?

Os livros didáticos universitários são ferramentas essenciais que atuam como contrapeso à dinâmica do mercado editorial privado. Eles validam a produção intelectual da região, o que, por sua vez, abre uma discussão necessária sobre os sistemas de avaliação científica: precisamos de métricas relevantes e adequadas às nossas realidades. Da mesma forma, a publicação pública funciona como um canal de divulgação cultural, conectando a universidade com a sociedade e as comunidades locais. Na CLACSO, somos pioneiros no acesso aberto há mais de três décadas porque entendemos que os livros devem ser acessíveis, abordar questões nacionais e oferecer edições críticas, não apenas aquelas que atendem aos interesses do Norte Global. 

— De que forma as editoras universitárias podem configurar seu catálogo para influenciar ativamente os debates sociais e culturais contemporâneos?

Para influenciar e transformar a realidade por meio do pensamento crítico, o primeiro passo é garantir que os livros cheguem ao público. A principal ferramenta para alcançar esse objetivo é a defesa do acesso aberto; ou seja, a manutenção de políticas editoriais que não cobrem nem pela publicação nem pela leitura. Para que isso seja viável, é necessário promover a coedição entre diversas universidades para compartilhar custos, desenvolver sua própria infraestrutura e garantir a presença de catálogos em repositórios interoperáveis, coordenando o trabalho das editoras com os sistemas de bibliotecas.

O principal desafio atual é a sustentabilidade financeira, especialmente em um contexto regional complexo, marcado por severos cortes orçamentários na educação pública, que afetam os salários dos professores, a pesquisa e as bolsas de estudo. Dada a sua dependência de orçamentos vulneráveis ​​aos ciclos políticos e econômicos, garantir a sustentabilidade da ciência e da literatura é uma responsabilidade pública. Fóruns como este seminário são essenciais para o desenvolvimento de estratégias coletivas de colaboração regional.

Além disso, precisamos transformar os sistemas de avaliação acadêmica que atualmente favorecem publicações em inglês e canais comerciais internacionais. Através do Fórum Latino-Americano de Avaliação Científica (FOLEC)Criada pela CLACSO em 2019, estamos trabalhando diretamente com órgãos públicos e institucionais na região e na América Latina para construir critérios alternativos que reconheçam e incentivem o impacto social, político e pedagógico da produção local.


VER NOTA NA UNIVERSIDADE DO CHILE


CLACSO no Seminário de Publicações Universitárias