América Latina: É hora de recuperar o senso de comunidade.

 América Latina: É hora de recuperar o senso de comunidade.

Milton Gabriel Hernández García1

Fique em casa!
¡Asï jama Ueakuni!
Na língua purépecha.
Fique em casa!
Gi nth´ui ka ng´!
Na língua otomí.

Esta não é a primeira vez que os povos indígenas da América Latina enfrentam uma ameaça de tamanha magnitude como epidemias e pandemias. Sua história de conquista e colonização é marcada por tais eventos. Contudo, as condições específicas em que travarão essa batalha são diferentes, pois são profundamente moldadas pelo desenvolvimento desigual do capitalismo em escala global e pelas diversas manifestações estatais do modelo neoliberal. Essas manifestações, ao longo das últimas quatro décadas, aprofundaram o empobrecimento, a marginalização, a expropriação de terras e territórios, a perda da autossuficiência e da soberania alimentar, e a proliferação de comorbidades que comprometeram ainda mais sua saúde.

Na América Latina, o modelo hegemônico relegou os povos indígenas à periferia da periferia, e é a partir dessa posição que eles travarão a batalha contra a COVID-19. Nessa guerra assimétrica, a comunidade e a ação comunitária tornam-se, mais uma vez, a trincheira a partir da qual se forjam as ações de contenção, defesa e autopreservação. Em alguns casos, isso ocorre em conjunto com o Estado; em outros, independentemente dele.

Os alarmes estão soando. Muitas vozes têm insistido que os efeitos da pandemia na América Latina são agravados por contradições étnicas, de gênero e de classe. Há alguns dias, o Mecanismo de Peritos das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (EMRIP) apontou que serão eles que “sofrerão desproporcionalmente” com os impactos da COVID-19, principalmente devido à precariedade em que já viviam antes do início da crise sanitária. Essa precariedade tem raízes históricas profundas. O órgão da ONU foi além, observando que a vulnerabilidade será ainda mais acentuada entre os indivíduos, comunidades e povos indígenas que, por diversas circunstâncias, estão longe de suas comunidades, sejam migrantes em periferias urbanas empobrecidas, refugiados ou deslocados internos devido à violência. Igualmente grave neste momento é a situação dos povos amazônicos que vivem em isolamento voluntário ou que, tendo estabelecido contato com a sociedade regional e o Estado, decidiram se isolar novamente para proteger sua saúde.

Por sua vez, o Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e do Caribe (FILAC) destacou que, diante da COVID-19, a América Latina apresenta “um desafio adicional, visto que grande parte da população vive em condições de extrema vulnerabilidade, incluindo principalmente os povos indígenas. Essas condições se traduzem em altos índices de desnutrição, inacessibilidade aos serviços de saúde, infraestrutura precária e baixa visibilidade”. Em nível latino-americano, o FILAC identifica quatro vulnerabilidades que afetam diretamente os povos indígenas: a) aqueles que vivem em isolamento voluntário têm sistemas imunológicos muito mais frágeis diante de patógenos externos; b) aqueles que vivem em centros urbanos muitas vezes estão localizados em bairros marginalizados, sem acesso a serviços básicos de água ou saneamento; c) muitos povos indígenas perderam ou enfraqueceram seus modos de vida tradicionais, alterando seus padrões alimentares, o que levou a uma mudança em seus perfis epidemiológicos e ao surgimento de novas doenças como diabetes, hipertensão, disfunções gástricas, câncer, entre outras; (yd) Em muitas regiões do continente, principalmente nas terras baixas, enfrenta-se uma grave epidemia de dengue e malária, que já afeta as comunidades indígenas.

É verdade que as vulnerabilidades são numerosas e se acumularam ao longo da história, mas diante de uma ameaça potencialmente devastadora, os povos indígenas estão testando ou redescobrindo práticas organizacionais para preservar a vida, colocando a reprodução da comunidade no centro como um espaço de refúgio e proteção. Nesse contexto, suas próprias formas de organização social, agricultura familiar, saberes ancestrais e controle territorial desempenham um papel fundamental na capacidade de autocuidado coletivo. Por exemplo, na Colômbia, onde o Sistema de Monitoramento Territorial da Organização Nacional Indígena relatou que 67% dos territórios indígenas carecem de serviços médicos estatais e 90% não têm acesso a água potável, muitas comunidades indígenas amazônicas e não amazônicas decidiram adotar uma política de isolamento voluntário ou reserva territorial. No entanto, apenas 30% delas têm alimentos suficientes para suportar esse período, cuja duração é incerta.

Um exemplo importante de organização socioterritorial para a proteção das comunidades é o das 127 autoridades tradicionais do Conselho Regional Indígena de Cauca (CRIC), que em 17 de março se declararam em “Minga permanente para a Proteção da Vida, Saúde e Bem-estar nos Territórios Indígenas do Departamento de Cauca, por meio de seus próprios sistemas”. Essa ação coletiva envolve não apenas a intensificação da vida espiritual das comunidades, mas também o fortalecimento dos processos de controle territorial, proibindo a entrada de visitantes para qualquer finalidade, seja em áreas turísticas, locais de produção ou espaços sagrados. As próprias estruturas do CRIC declararam estado de emergência cultural, territorial, econômica e sanitária. Cada autoridade tradicional deve coordenar-se com sua comunidade para definir mecanismos que regulem a entrada e a saída de membros da comunidade, evitando saídas desnecessárias de seu território. Elas também ressaltaram a necessidade de “manter e expandir sua própria economia, baseada na produção local e na recuperação de práticas produtivas e alimentares ancestrais”.

Quatro vulnerabilidades afetam diretamente os povos indígenas:

a) aqueles em isolamento voluntário têm o sistema imunológico enfraquecido contra patógenos externos;

b) aqueles que vivem em centros urbanos geralmente habitam bairros marginais, sem serviços de água ou esgoto;

c) Muitos povos indígenas mudaram seus padrões alimentares, o que levou ao surgimento de doenças como diabetes, hipertensão e disfunções gástricas, entre outras;

d) Em muitas regiões, principalmente nas terras baixas, enfrenta uma grave epidemia de dengue e malária.

No México, inúmeras cidades e comunidades se organizaram para enfrentar a pandemia, tomando como referência as medidas gerais ditadas pelo governo federal, mas ao mesmo tempo exercendo seu direito à autodeterminação e autonomia. Em Sonora, em 18 de março, o Seri ou comca'acPor meio de suas autoridades tradicionais, anunciaram nas redes sociais que os habitantes indígenas desta cidade não teriam permissão para deixar seu ejido e território comunitário durante o período de emergência. Além disso, foi anunciado que, a partir daquele momento, nenhum forasteiro (cocsar ou mestiços) poderiam entrar. Para evitar isso, destacamentos da Guarda Tradicional foram posicionados nas entradas das duas comunidades Seri, Punta Chueca e Desemboque. As medidas incluem a suspensão do turismo e da venda de frutos do mar. O Governador Tradicional estabeleceu medidas extremamente rigorosas porque sabe que a população comca'ac Isso representa um risco significativo, já que uma alta porcentagem sofre de diabetes e hipertensão. Além dessas medidas, “estamos queimando sálvia e cantando mantras para afastar o vírus. Para alimentação, estamos voltando ao passado, coletando frutas do deserto e pescando no mar para nossa autossuficiência.”

Para os povos indígenas, ficar em casa significa ficar na comunidade. Lar vai além das quatro paredes; é a rede de relações entrelaçadas no tecido da vida cotidiana, na família extensa e nos papéis comunitários. Ficar em casa significa fazer guarda em um posto de controle para impedir a entrada de pessoas de fora, indo além das recomendações das autoridades de saúde. Parece-me claro que, neste momento, os povos indígenas estão tomando essas medidas não contra o Estado, mas porque entendem que, se a COVID-19 os atingir, suas chances de combatê-la são muito menores do que as das pessoas que vivem nas cidades, que, para o bem ou para o mal, têm maior acesso ao sistema público de saúde e à infraestrutura hospitalar que, por décadas, foi minada pela ordem neoliberal corrupta. A mesma ordem que deixou o país repleto de mais de 300 hospitais fantasmas, inaugurados cinicamente pelo governador ou presidente em exercício. É por isso que o desafio é imensurável, e os povos indígenas o enfrentam com o que têm e sempre tiveram à disposição: a vida comunitária.


1- Jornalista mexicano


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