Afrodescendentes, justiça racial e direitos humanos

 Afrodescendentes, justiça racial e direitos humanos


Seminário 2304

CadeiraCLACSO

Coordenação: Tarsila Flores (Escola Nacional de Saúde Pública, Brasil), Cidinalva Neris e Katia Regis (Universidade Federal do Maranhão, Brasil)

Equipe de ensino: Jackeline Aparecida Ferreira Romio (Universidade de São Paulo, Brasil), Tarsila Flores (Escola Nacional de Saúde Pública, Brasil), Cidinalva Neris e Katia Regis (Universidade Federal do Maranhão), Evandro Piza (UNB, Brasil), Rodrigo Edmilson de Jesus (UFMG, Brasil),

Início: 23/03/2023 | Inscrição: 19/12/2022 a 22/03/2023

Carga horária: 12 semanas – 90 horas.


O seminário tem como objetivo apresentar debates e críticas atuais, baseados nos processos históricos e sociais das comunidades afro-latino-americanas e caribenhas, referentes à justiça racial e aos direitos humanos. Propõe-se a utilização das lentes da interseccionalidade, da criminologia crítica e da perspectiva dos direitos humanos para compreender e confrontar os processos de violência racial e de gênero, discriminação, exclusão, criminalização, genocídio, feminicídio e assassinato de jovens afrodescendentes.
O seminário é uma proposta curricular contra-hegemônica que visa criar condições para a produção de conhecimento emancipatório, estratégias e pedagogias para intervenções em contextos necropolíticos e epistemicidas.

A desigualdade étnica e racial constitui um elemento estrutural e estruturante da realidade que afeta diariamente a população afrodescendente, sendo um aspecto significativo para a compreensão de como as desigualdades sociais e as relações de poder assimétricas foram historicamente construídas na América Latina e no Caribe, bem como as tensões em torno da superação dessas desigualdades. Reconhecer a desigualdade étnica e racial como uma característica comum entre os países da América Latina e do Caribe nos leva a considerar a possibilidade de uma análise crítica comparativa.

Este quadro de desigualdade afeta diretamente os jovens nos países da América Latina e do Caribe. Focar nas experiências, dilemas, dificuldades e potencial dos jovens de hoje é também um dos desafios deste curso, especialmente no que diz respeito ao acesso à justiça e a uma vida livre de violência racial e de gênero. Intelectuais como Abdias do Nascimento e Lélia González há muito destacam o genocídio da população negra e as precárias condições de vida dos jovens negros, incluindo o alto índice de desemprego e a violência policial, que aumentou significativamente nos últimos anos.

Segundo o IPC (Índice de Crimes contra a Juventude Negra) no Brasil, existem diversos desafios para conter o homicídio de jovens negros. Por um lado, observa-se o aumento da proliferação do tráfico de drogas em comunidades de baixa renda, especialmente nas favelas, o que resulta, em última instância, da falta de oportunidades, da insegurança pública e da negligência do Estado. Em um ambiente onde a omissão das autoridades públicas leva ao surgimento de grupos de tráfico organizado, bem como de milícias, os índices de violência contra a juventude negra atingem níveis alarmantes. Por outro lado, o aumento da violência policial contra esses jovens também é uma realidade chocante. Essas situações envolvem a morte de jovens afrodescendentes, especialmente aqueles em que a justificativa para a ação policial se baseia nos chamados 'autos de resistência'. (CPIADJ, 2016:33)

Em relação à violência de gênero contra mulheres afrodescendentes, a alta incidência permanece a mesma que entre homens afrodescendentes, sendo especialmente notável o aumento do feminicídio de mulheres negras jovens e da violência sexual.

O curso busca compreender esses fenômenos também em sua conexão com as lacunas no acesso à justiça e o encarceramento em massa da população afrodescendente, especialmente jovens. Abordará as interseções do racismo na construção de oportunidades educacionais, sociais, de saúde e de segurança pública, com foco na justiça racial e restaurativa à luz dos direitos humanos, por meio de um currículo contra-hegemônico e crítico que confronta as desigualdades sociais, a violência e a discriminação.

OBJETIVO GERAL

Problematizar os processos de discriminação, exclusão, criminalização, genocídio, feminicídio e juvenilicídio da população afrodescendente, bem como refletir sobre a produção de conhecimento e estratégias de lutas emancipatórias contra os sistemas de necropolítica.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS 

  • Refletindo sobre como as desigualdades sociais, raciais e de gênero são historicamente constituídas e originadas por múltiplos fatores, e são estruturais nas sociedades latino-americanas e caribenhas;
  • Discutir o papel desempenhado pelos movimentos sociais na América Latina e no Caribe na luta contra as desigualdades e pela educação emancipadora.
  • Discuta o impacto da violência sobre a população negra, especialmente em relação ao genocídio e ao feminicídio negro, numa perspectiva comparativa nos países da América Latina e do Caribe;
  • Discutir criminologia, justiça racial e justiça restaurativa através do conceito de interseccionalidade e crítica racial à luz dos princípios dos direitos humanos.
  • Realizar uma análise interseccional dos atributos de gênero, raça e classe na distribuição de punições nos sistemas de justiça criminal da América Latina e do Caribe;
  • Investigar como o racismo permeia a construção da identidade de jovens negros e negras, as oportunidades educacionais e as experiências sociais que vivenciam.

 

  • Refletindo sobre as desigualdades na América Latina e no Caribe

    Profas.: Cidinalva Neris e Kátia Regis

    Síntese dos conceitos da sala de aula: Neste módulo, pretendemos refletir sobre como a desigualdade social é historicamente constituída e originada por múltiplos fatores, e como discutiremos a relação entre as assimetrias existentes nas sociedades latino-americanas e caribenhas e o racismo, o machismo e as desigualdades.

  • Movimentos sociais e educacionais na América Latina e no Caribe: formas de combater o racismo e as desigualdades sociais.

    Profas.: Cidinalva Neris e Kátia Regis

    Resumo do conceito da aula: Neste módulo, discutiremos os movimentos sociais na América Latina e no Caribe, destacando o papel que desempenham na luta contra as injustiças e por uma educação antirracista e emancipadora.

  • feminicídio negro

    Professora Jackeline Romio

    Síntese dos conceitos da sala de aula: Um ponto de partida para muitos estudos acadêmicos sobre o tema é o livro "Femicide: the politics of woman killing" (Feminicídio: a política do assassinato de mulheres), publicado em 1992 por Jill Radford e Diana Russel (1992). Este mesmo livro possui uma seção dedicada ao estudo da relação entre feminicídio e racismo. Neste módulo, estudaremos reflexões que oferecem conceitos fundamentais para a compreensão da expressão letal resultante da interação entre as opressões de gênero, raça e classe social.

  • Nuances do Genocídio Negro

    Professora: Tarsila Flores

    Síntese dos conceitos da sala de aula: É importante discutir este tema, ou seja, por que é possível considerar os homicídios de jovens negros no Brasil e em toda a América Latina e Caribe como um fenômeno genocida. Para tanto, pretende-se utilizar construções acadêmicas sobre aspectos jurídico-históricos, bem como o conceito de “Cenas do Genocídio Negro” (FLORES, 2018). Tal conceito permeia a ideia de um jantar racial presente na obra de Mbembe, somada à ideia de um evento espetacular e brutal, ocorrido no Teatro Pavis. Esses conceitos demonstram consonância com o sentido metafísico e fenomenológico do elevado número de mortes na população negra.

  • Relações entre os conceitos de feminicídio e genocídio

    Professores. Jackeline Romio e Tarsila Flores

    Síntese dos conceitos da sala de aula: A sala de aula aborda as relações entre os fenômenos do Genocídio e do Feminismo Negro e visa proporcionar uma visão crítica da busca pelos conceitos de raça, gênero e decolonialidade que estão no centro do debate sobre o extermínio da população negra. Com isso, oferecer ferramentas críticas não significa a elaboração de construções teóricas e empíricas do Sul, nem o respeito às estruturas estatais genocidas e feminicidas que afetam toda a América Latina e o Caribe.

  • Os Discursos Científicos da Raça e da Criminalidade como Utopias de organização do controle social - uma recepção latino-americana do pensamento criminológico racista científico: Introdução ao Caso brasileiro.

    Prof.: Evandro Piza

    Síntese de conceitos da sala de aula: Qual a relação entre discursos científicos sobre raça, discursos científicos sobre criminalidade e propostas de reorganização do controle social? O controle social como problema para os primeiros criminologistas. As mudanças nas formas de controle social com o fim da escravidão: do negro cativo ao liberto vigiado. Embranquecimento e Política de Imigração. Os Precursores da Criminologia Brasileira: Nina Rodrigues, o pensamento de Lombroso e o discurso sobre a mestiçagem. A importância da Criminologia Positiva para a difusão do racismo científico latino-americano. 

  • Como as instituições judiciárias na reprodução do racismo contra uma perspectiva patriarcal moralista na guerra contra as drogas

    Prof.: Evandro Piza

    Síntese dos conceitos da sala de aula: Conteúdo Temático: Como as instituições judiciais reproduzem aspectos sexistas e racistas em seu contexto? Por que a categoria de jurisdição é essencial para a compreensão do funcionamento dessas instituições? Quais são as relações entre racismo e sexismo na política de combate às drogas?

  • Criminologia das relações raciais e diretas

    Professora: Dina Alves

    Síntese de conceitos da sala de aula: Na sociedade brasileira, a categoria de inocência é sempre racializada, especialmente quando se trata da comunidade policial. Se os escravos e seus familiares eram considerados vítimas das atrocidades cometidas por eles, ou heróis destruidores que sacrificaram sua existência na destruição e construção da nação, hoje observamos a categoria de vítimas, também pensada a partir de uma leitura racial, assim como os conceitos de lei e ordem. Pretende-se, por meio da literatura especializada em criminologia, relações raciais e direito, analisar o impacto dessa categoria e a produção da verdade oficial nas decisões judiciais, na formulação de políticas públicas de segurança pública e nas ações policiais.

  • Mas, no fim das contas, será que jovens negros existem mesmo?

    Prof.: Rodrigo Ednilson de Jesus

    Síntese conceitual da sala de aula:

    Apesar da dura realidade social do racismo, das desigualdades e da violência vivenciadas por jovens negros e afrodescendentes na América Latina, observa-se a existência de pesquisas estatísticas, trabalhos acadêmicos e políticas públicas que insistem em ignorar a identidade racial desses jovens. Compreender a produção dessa invisibilidade e debater alternativas para superá-la é um dos dois objetivos iniciais que definimos.

  • Jovens negros, condições de vida e experiências escolares

    Prof.: Rodrigo Ednilson de Jesus

    Síntese conceitual da sala de aula:

    Segundo a UNICEF, as más condições de vida e a discriminação racial são algumas das principais barreiras que os jovens brasileiros enfrentam para garantir seu acesso à educação. Os textos indicados nesta seção têm o objetivo de apresentar dados socioeconômicos de jovens negros na América Latina, com ênfase nas desigualdades na educação. Compreender a estreita relação entre racismo, condições de vida e evasão escolar é um dos objetivos deste segundo encontro.

 

  • Alves, d. (2017). Espíritos negros, sucos brancos: uma análise da interseccionalidade de gênero, raça e classe na produção da punição em uma prisão de São Paulo. Revista CS 21 (21), 97-120
  • Alves, Corpogramas Raciais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – puc, 2020, teses.
  • Audre Lorde (poesia).necessidade“Preciso: um coral de vozes de mulheres negras”, 1990. Tradução livre: “Preciso: um coral de vozes de mulheres negras”.
  • Situação dos afrodescendentes na América Latina e desafios políticos para a garantia de seus direitos.. 2017.
  • Coletivo do Rio Combahee. Declaração do Coletivo do Rio Combahee. Boston, 1977.
  • Duarte, EP, & Da Silva Freitas, F. (2019). Corpos negros na perseguição do Estado: política de drogas, racismo e direitos humanos no Brasil. Direito público , 16 (89).
  • Duarte, Evandro C. Piza; Queiroz, Marcos V. Lustosa; Costa, Pedro H. Argolo. Uma hipótese colonial, um diálogo com Michel Foucault: uma modernidade no Atlântico negro no centro do debate sobre racismo e sistema penal. Universitas jus, v. 27, p. 01-31, 2016.
  • Feierstein, Daniel. A Convenção sobre o Genocídio: Alguns dados históricos e sociológicos que contribuem para os debates jurídicos. Em: Revista de Direito Penal e CriminologiaCrimes econômicos, contravenções, garantias constitucionais, processo penal, execução de penas. Ano 5, nº 01. Fevereiro de 2015. Direito das sociedades anônimas – Tucumán, Cidade Autônoma de Buenos Aires – Argentina.
  • Flowers, Tarsila. Por que o genocídio negro? In: Jantares de um genocídio: homicídios de jovens negros no Brasil e as ações de representantes do Estado. Cap. 1, p. 27 a 46. Editora Lumen Juris, Rio de Janeiro, 2018.
  • Freitas, Felipe Da Silva. Juventude negra: qual é a diferença? In: diogenes pinheiro ... [et al] (orgs.). Agenda da juventude brasileira Leituras sobre uma década de mudanças. Rio de Janeiro: Unario, 2016.
  • Jesus, M M De. Que este mundo não se resume aos nossos carros.A construção da verdade jurídica nos processos penais do tráfico de drogas. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2016, teses.
  • Jesus, Rodrigo Ednilson de. Mecanismos eficientes na produção do fracasso escolar de jovens negros: estereótipos, silenciamento e invisibilização. Rev., belo horizonte, v. 34, e167901, 2018.
  • Pleyers, Geoffrey. Movimentos sociais no século XXI Perspectivas e ferramentas analíticas. Introdução e capítulos 1, 8, 9 e 10. 1ª ed. - Cidade Autônoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018. Livro digital, pdf.
  • Rangel, Marta; Del Popolo, Fabiana. Perfis demográficos e socioeconômicos: entre diversidade e desigualdade. Em: Jovens afrodescendentes na América Latina: Realidades diversas e direitos (não) cumpridos. Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).
  • Santomé, Jurjo Torres. Justiça curricular e a urgência de repensar o currículo escolar. Intervenção no colóquioCurrículo – Sociedade: Vozes, Tensões e Perspectivas. Cidade do México, 11, 12, 13 e 14 de outubro de 2016.
  • Segato, Rita Laura. “Feminicídio como crime no fórum internacional de direitos humanos: o direito de nomear o sofrimento na lei”. In: Fregoso, Rosa-Linda; Bejarano, Cynthia (orgs.). Feminicídio na América LatinaCidade do México: 2011.
  • Sposito, Marília Pontes. Uma pesquisa sobre jovens após a graduação: um balanço da produção estudantil em educação, serviços sociais e ciências sociais (1999-2006). In: Sposito, Marília Pontes. (coord.) O estado da arte sobre a juventude no pós-graduação brasileira: educação, serviços sociais e ciências sociais (1999-2006). Volume 1. Belo Horizonte, mg: argvmentvm, 2009.
  • Walsh, Catherine. Interculturalidade e (des)colonialidade: perspectivas

 



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Perguntas frequentes

Os requisitos básicos para participar de um seminário são:

  • Disponibilidade de pelo menos 4 horas por semana para se dedicar ao curso do seminário.
  • Acesso à Internet.
  • Domínio adequado das ferramentas de comunicação e informática.
  • Proficiência no idioma em que o curso será ministrado. Os idiomas oficiais são o espanhol e o português.
Os seminários têm duração de 12 semanas, além da conclusão de um projeto final. Um total de 90 horas de dedicação será creditado.
O curso é composto por doze aulas, cada uma acompanhada de leituras obrigatórias, leituras complementares, fóruns de discussão e atividades de aprendizagem propostas pela equipe docente, além de entregas parciais e um projeto final. O curso é ministrado online e de forma assíncrona. Alguns instrutores podem propor atividades síncronas. Nesses casos, a data e o horário serão combinados previamente entre a equipe docente e os alunos para garantir a participação de todos. Para aprovação no seminário, os alunos devem participar de pelo menos 80% dos fóruns de discussão e atividades propostas pelos instrutores, concluir todas as entregas parciais programadas e ser aprovados no projeto final.

 



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