Despedida de Mónica Isabel Bendini, membro do Grupo de Trabalho sobre Trabalho Agrícola, Desigualdades e Ruralidade.

 Despedida de Mónica Isabel Bendini, membro do Grupo de Trabalho sobre Trabalho Agrícola, Desigualdades e Ruralidade.

¡Obrigado e sempre!

Há poucos dias, nossa querida amiga e colega Mónica Bendini, pioneira e figura de destaque nos estudos rurais da América Latina, faleceu. Mónica foi uma força motriz e participante ativa no Grupo de Trabalho da CLACSO “Trabalho agrícola, desigualdades e ruralidades”.Juntamente com os pesquisadores com quem ela cultivou fortes laços acadêmicos e pessoais ao longo de sua vida, nós, que tivemos o privilégio de conhecê-la, estamos profundamente tristes com seu falecimento, que deixa um enorme vazio e também um forte compromisso em dar continuidade ao seu legado. Compartilhamos e endossamos as palavras escritas por Josefa Salete Barbosa Cavalcanti. Enviamos nossas mais sinceras condolências à sua família, colegas e a todos os seus entes queridos.

MÓNICA ISABEL BENDINI: coragem, sabedoria, generosidade, poesia e inspiração. Qualidades que se manifestam nos territórios desafiadores da Patagônia, na tranquilidade de seus rios e barcos, e nas cores e na arte de seu povo.

Neste momento doloroso de despedida da socióloga Mónica Isabel Bendini, buscamos expressar nossa nostalgia e também destacar o privilégio e a dádiva do tempo compartilhado com esta notável acadêmica e pessoa, que preencheu seus dias com amor pela ciência, pela pesquisa e pela família. Expressamos nossa gratidão a Mónica e estendemos nossas mais profundas condolências à sua família: suas filhas Leticia e Lucía, seu filho Andrés e seu neto Valentino.

Reconhecer a grandeza de sua contribuição científica, celebrar sua carreira e agradecê-la por seu trabalho no fortalecimento das Ciências Sociais e na formação de recursos humanos na América Latina são formas de expressar nossa gratidão às muitas gerações de estudantes formados por Mónica e pelo valor inestimável de seu exemplo e legado, que sobrevivem à sua morte, ocorrida em 4 de abril de 2022. Por meio de seu trabalho e contribuições para a academia e as populações locais, Mónica Bendini continuará sendo, por meio de seu exemplo e legado acadêmico, um nome que exalta as Ciências Sociais na América Latina.

Doutora em Sociologia, foi reconhecida como Professora Emérita da Universidade Nacional de Comahue, onde desenvolveu sua carreira como pesquisadora e docente por mais de três décadas. Foi pesquisadora principal do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (CONICET). Realizou pós-doutorados e foi professora visitante em universidades no Brasil, Uruguai, Canadá, Espanha, Estados Unidos e México.

Mónica deu uma contribuição significativa para a pesquisa e a formação de pesquisadores na área de sociologia rural e do trabalho. Seu trabalho e produção acadêmica foram cruciais para a promoção do Grupo de Estudos Sociais e Agrários (GESA) e para a criação do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Agricultura Latino-Americana na Universidade Nacional de Comahue, além de elevar o perfil das instituições acadêmicas latino-americanas em associações internacionais.

Sua vasta produção de livros e artigos publicados internacionalmente, com foco na agricultura, foi notável. Sua formação familiar, seu trabalho com populações indígenas e camponesas na Patagônia argentina, bem como o extenso trabalho de campo que realizou em outros países da América Latina, fizeram dela uma especialista em estudos de desenvolvimento rural, atuando em universidades e instituições de pesquisa nacionais e internacionais.

Destaca-se sua contribuição para a formação de recursos humanos na área de sociologia e ciências agrárias, com ênfase nas desigualdades étnicas. e gênero no ambiente de trabalho. Ela foi pesquisadora de campo e colaboradora ativa de movimentos camponeses, trabalhadores migrantes e suas associações regionais e nacionais. Trabalhou incansavelmente para a construção de sociedades científicas nacionais e internacionais. Participou frequentemente dos congressos da ALASRU e da IRSA e das conferências nacionais da PIEA Argentina; foi a representante da América Latina no RC40 da Associação Internacional de Sociologia. Em particular, Mónica deu uma rica e contínua contribuição à sociologia rural, participando regularmente de seus congressos como organizadora, palestrante e debatedora até os últimos anos.

Conheci Monica no segundo Congresso da ALASRU, em Caracas, Venezuela, em 1986. Este encontro gerou debates e discussões que abriram caminho para o Terceiro Congresso da ALASRU, organizado por Mónica Bendini e realizado em 1990 na Universidade Nacional de Comahue, nas cidades de Neuquén e General Roca. Com uma excelente programação elaborada por Mónica e sua equipe, representantes da América Latina e de outros países reuniram-se na Patagônia argentina. O número de participantes e a programação estimulante ofereceram oportunidades promissoras para alianças que impulsionassem o desenvolvimento da Sociologia Rural e o crescimento da comunidade acadêmica latino-americana. Diversos projetos e intercâmbios foram realizados, com o apoio de agências de fomento nacionais e internacionais, em especial o CONICET (CNPq), a CAPES (CONACYT), a CLACSO (Fundação Carolina do Sul), a Fundação Carolina e os Ministérios da Educação de diversos países latino-americanos, incluindo o Brasil. Graças ao empenho e dedicação de Mónica, as trocas com associações, grupos de pesquisa e redes foram ampliadas. Pesquisas internacionais, incluindo o programa de Estudos sobre Alimentos, Agricultura e Meio Rural da LASA, o RC40 da Associação Internacional de Sociologia e o Grupo de Trabalho da ALASRU e da CLACSO sobre Trabalho Agrícola, Desigualdades e Ruralidades.

Mónica sempre foi uma pesquisadora dedicada ao povo de seu país, a Patagônia, crítica e exigente na produção e disseminação do conhecimento, como já foi reconhecido. A partir de nossa experiência de pesquisa no Sertão do Nordeste brasileiro e na Patagônia, nos campos de fruticultura para exportação dos vales do São Francisco do Rio Negro e do Neuquén, emergiram registros da riqueza de suas contribuições e do conhecimento adquirido com suas observações de campo. A partir desse envolvimento com a pesquisa, abriram-se oportunidades para a realização. Participamos de cursos de pós-graduação, como o Mestrado em Sociologia Rural Latino-Americana da Universidade de Comahue, programas de pós-doutorado e estágios acadêmicos na Universidade Federal de Pernambuco, no Brasil. Essas trocas resultaram em livros, artigos, dissertações e teses. Em 2015, recebemos um prêmio internacional pelo nosso trabalho. Mais recentemente, concluímos um capítulo publicado em um livro pela Editora Annablume em 2022. Desenvolvemos uma técnica de escrita colaborativa que nos permitiu escrever, literalmente, em colaboração, fruto de nossa longa parceria acadêmica.

EEm 2018, a ALASRU prestou-lhe homenagem em sessão especial do Congresso realizada em Montevidéu. Esta sessão, intitulada “O papel da pesquisa e da educação na compreensão das transformações do mundo rural: as contribuições de Mónica Isabel Bendini”, contou com apresentações de Josefa Salete Barbosa Cavalcanti (Universidade Federal de Pernambuco); Alessandro Bonanno (Universidade Estadual Sam Houston); Sara María Lara Flores (UNAM); Luis Daniel Hocsman (Universidade de Córdoba); Pedro Tsakoumagkos (CEA.FCS/FCA.UNC); Norma Graciela Steimbreger (Universidade Nacional de Comahue); Andrés Pedreño Cánovas (Universidade de Múrcia); e muitos outros colegas, que manifestaram o seu reconhecimento e gratidão pela sua carreira.

SSuas publicações oferecem uma ampla gama de contribuições para o campo da Sociologia, em seus diversos sentidos: campo de pesquisa e estudo, campo de ensino e campo de trabalho. O livro "O Campo na Sociologia Contemporânea", produzido em colaboração com outros pesquisadores, é um exemplo disso. Mónica é coautora de diversas publicações, que refletem sua abordagem colaborativa ao trabalho. Em seus escritos sobre esse campo, ela deu visibilidade e provocou debates sobre questões significativas relativas ao mundo rural e às formas como os espaços de produção e trabalho são transformados. Destaca-se a pluralidade de contribuições, territórios e populações estudadas, incluindo: sobre pastores transumantes, as estratégias de reprodução social e sobrevivência de camponeses na Patagônia; em "Com as Mãos Nuas", as transformações da fruticultura argentina e o papel das mulheres nesses processos; e em "De Andorinhas e Outros Migrantes", estratégias de sobrevivência e migração. Ao analisar as transformações sob o impacto da globalização alimentar, o estudo enfatiza a migração internacional e as contradições da mobilidade laboral, a transformação dos pecuaristas e pequenos agricultores, e as novas agroindústrias emergentes em contextos patagônicos. A delimitação dos espaços e sujeitos que definem esses campos foi sempre realizada com grande cuidado, baseando-se em contribuições teóricas e metodológicas precisas, alianças e diálogos com pesquisadores de sua universidade e de todo o mundo.

A professora Bendini deu uma contribuição notável para o desenvolvimento da Sociologia Rural na Argentina e na América Latina. Ela foi um farol que iluminou a sociologia latino-americana por mais de 50 anos. Muito já foi escrito sobre sua carreira, e muito mais ainda precisa ser registrado. Agradeço à minha querida colega por sua alegria de viver, coragem, amizade e solidariedade. Muito obrigada, querida guerreira, companheira em tantas lutas, tantas caipirinhas e tantos momentos compartilhados no Brasil e na "Terra do Vento".

Obrigada, Monica, por todas as suas contribuições para tornar este mundo mais justo e para facilitar o dia a dia na sociologia.Que belos navios e brisas os levem a lugares de beleza, justiça, generosidade e amizade. Adeus!

20 de abril de 2022
Josefa Salete Barbosa Cavalcanti
Grupo de Trabalho CLACSO

Trabalho agrícola, desigualdades e vida rural

Esta declaração expressa a posição do Grupo de Trabalho agrícola, desigualdades e vida rural e não necessariamente a do Centros e instituições que compõem a rede internacional CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.