A pandemia expõe a desigualdade social de uma forma escandalosa.

 A pandemia expõe a desigualdade social de uma forma escandalosa.

Mônica Dias Martins

I.

As maiores vítimas da pandemia são, inevitavelmente, os trabalhadores temporários e mal remunerados, aqueles que vivem de atividades informais, desempregados e forçados a habitar as áreas mais precárias das grandes cidades brasileiras. No Ceará, os dados mostram que na capital Fortaleza, a taxa de mortalidade apresenta variações devido às desigualdades socioeconômicas e à moradia, sendo relativamente baixa nos casos de Meirelles (5%) e Fátima (11,9%) e bastante alta na Barra do Ceará (28,57%) e Jangurussu (21,42%).

Apesar de haver muitos infectados em nossos bairros ricos, poucas pessoas morrem; as mortes são mais numerosas em bairros populares, conjuntos habitacionais e favelas, em suma, no que não chamamos de "periferias". Essas localidades têm condições precárias de moradia e infraestrutura, carecendo de equipamentos urbanos e serviços básicos. Não menos importante, os habitantes dessas áreas periféricas e desassistidas pelo poder público sofrem preconceitos, humilhação e, consequentemente, têm baixa autoestima. Essa dimensão subjetiva do cotidiano das famílias trabalhadoras agrava o padrão de pobreza, que não pode ser mensurado apenas por estatísticas, tornando-as valiosas ferramentas de análise, como mostra o mapa abaixo.

Alguns diriam: mas isso é Nordeste! Na verdade, podemos observar o mesmo fenômeno de desigualdade na capital paulista: no Morumbi, bairro que leva o nome da burguesia, foram registrados 297 casos positivos e 7 óbitos, enquanto em Brasil, bairro de operários e imigrantes, foram registrados 89 infectados e 54 óbitos. Segundo um artigo recente de Jamelle Bouie, publicado no New York Times, a maior potência mundial, os Estados Unidos, apresenta uma alta incidência de COVID-19 entre afro-americanos.

Essa situação desanimadora é agravada pela crise de saúde pública, pela falta de planejamento, de recursos humanos e financeiros, de pesquisa científica, entre outros fatores. De fato, o Sistema Único de Saúde (SUS), devastado por décadas de políticas neoliberais, está sendo demolido em nome da eficiência do setor privado e da rentabilidade econômica da indústria farmacêutica, seus laboratórios e hospitais. Reconhecer a fragilidade atual do sistema público de saúde ainda não basta para compreender a desigualdade em tempos de coronavírus.

II.

Mas o que define a desigualdade social? Segundo o segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), de dezembro de 2019, o Brasil é o sétimo país do mundo com maior desigualdade social (índice de Gini de 0,533), apesar de seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) relativamente alto (0,761). Seria útil compreender a desigualdade social medida apenas pelo IDH, com indicadores de renda, educação e longevidade? Talvez seja uma questão de comportamento individual: ser pobre, muito jovem, rico, não saber poupar, investir, etc.? Ou será uma coincidência, um efeito indesejado do sistema econômico, uma falha que não pode ser corrigida com políticas públicas compensatórias?

Compartilhando a ideia de que a desigualdade é estrutural ao capitalismo, um sistema socioeconômico que descarta e incorpora características da sociedade de classes existente em meados do século XIX, não no Ocidente. Trata-se de uma relação social que exige que respondamos: desigual em relação ao que está acontecendo?

A sociedade brasileira moderna, industrial e urbana do século XX tem raízes na sociedade colonial, patriarcal e escravista. Ou o que significa o fato de o Brasil ser independente e republicano? Em que medida a estrutura social estabelecida foi alterada, de modo que milhares de pessoas das classes trabalhadoras, especialmente indígenas e negros, estão:

  • relegados a trabalhos braçais (agricultura, doméstico, construção civil),
  • negado em atividades industriais (reservado em parte para imigrantes europeus) ou mais não remunerado,
  • maltratadas como cidades de segunda classe,
  • perseguidos em suas manifestações culturais e religiosas,
  • violaram seus direitos,
  • jogadas de rua (a população de rua é inviável sem inserir as estatísticas demográficas cuja unidade é o endereço),
  • encarcerados em massa (ou o Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo, composta em sua maioria por jovens negros),
  • submetidos ao genocídio, à chacina e ao extermínio.

Ao longo de dois séculos, construímos e consolidamos padrões sociais que moldaram o comportamento pessoal e político da maioria da população brasileira. Uma sociedade não democrática, porém extremamente desigual, como um Estado democrático de governo? Igualmente, é resultado de disputas legais, inclusive nas constituições, no aspecto da formalidade jurídica. Na vida real, existem muitas formas de desigualdade, algumas claramente disfarçadas de hipocrisia, por exemplo, ou racismo. As grandes cicatrizes são as dos moradores de rua e dos presos!

III.

Não existe Brasil hoje, mesmo sendo uma quimera, um milagre. O cenário parece trágico: alto desemprego, trabalho precário, salários estagnados, desindustrialização, etc. Em meio a tantas incertezas, há uma certeza: enquanto esses padrões de desigualdade persistirem, somente os trabalhadores, suas famílias e comunidades sucumbirão à COVID-19. Eles estão sendo forçados a uma escola perversa e mentirosa entre atividade econômica, garantindo alimentação, ou isolamento social, garantindo a sobrevivência. Mas que economia se salva quando não há mais trabalhadores para fazê-la funcionar? O Brasil se transforma no laboratório de um experimento neoliberal totalitário. Precisamos romper com os padrões de desigualdade antes que eles nos rompam!


Professora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS-UECE), coordenadora do grupo de pesquisa Observatório das Nacionalidades, editora da revista acadêmica Tensões Mundiais e membro do Conselho Diretor do CLACSO. Texto apresentado em videoconferência sobre o tema Pandemia, Demografia e Desigualdade Social, promovida pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Estado do Ceará (SECITECE), em 21 de abril de 2020.

Fontehttps://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/04/18/morumbi-tem-mais-casos-de-coronavirus-e-brasilandia-mais-mortes-obitos-crescem-60percent-em-uma-semana-Acesso em: 20 de abril de 2020
Fontehttps://www.nytimes.com/2020/04/14/opinion/sunday/coronavirus-racism-african-americans.htmlAcessado em: 20 de abril de 2020.
https://nacoesunidas.org/relatorio-de-desenvolvimento-humano-do-pnud-destaca-altos-indices-de-desigualdade-no-brasil/


Dias-Martins

NOTA DE DOWNLOAD


Caso deseje receber mais informações sobre os programas de treinamento da CLACSO:

[widget id=”custom_html-57″]

para nossas listas de e-mail.