Por força do “doido” e das hospedeiras medonhas

 Por força do “doido” e das hospedeiras medonhas

Manuel Domingos Neto

Aqui, os brasileiros verão as primeiras informações sobre a amplitude e a profundidade do megapacote recentemente apresentado em vista da regulação das contas públicas. Direitos trabalhistas anulados e funcionalismo tratado como uma raça amaldiçoada. O pacto federativo permanece em vigor no núcleo, sem estabelecer um novo tipo de relação entre as entidades da União. Recursos públicos destinados à proteção de políticas sociais e múltiplas atividades do poder público, inclusive estratégicas, sacrificados em benefício da liberação de recursos públicos para especulação financeira…

Que força tem este governo! Que eu saiba, não há registro anterior de uma ofensiva liberal equivalente. Durante este período, você se liberta ao tomar forma em paralelo com as iniciativas que almeja ou com o desenvolvimento capitalista. Os caprichos da soberania não estão completamente enterrados. O Estado, inclusive, possui capacidade de planejamento estratégico. Collor de Mello e a FHC não garantem tantas ofertas ao “mercado” quanto Bolsonaro.

Este pacote, que amplia os males acumulados até agora, será imposto aos brasileiros. A forma triunfal com que a grande imprensa apresenta a notícia, as manifestações de simpatia dos presidentes da Câmara e do Senado, a fragilidade da esquerda e o silêncio insensível das ruas indicam que ele será implementado. Com concessões negociadas por dirigentes parlamentares, as propostas de Guedes serão aprovadas. O esquema repressivo está preparado para qualquer protesto incômodo.

É admirável como um presidente que poderia perder seu mandato devido a inúmeros crimes de responsabilidade, por envolvimento com milícias criminosas e apoiado por uma minoria de brasileiros, consegue feitos impensáveis, destruindo décadas de construção do Brasil.

De onde vemos esse sujeito ser classificado à força como “grosseiro”, “incapaz”, “burro”, “paranoico”, “irracional”, “doidão”, “mau”, “ridículo”…?

O sucesso do neoliberalismo na selva reflete uma combinação diabólica de atores, procedimentos e circunstâncias.

Tubarões das finanças globais, operadores da estratégia de dominação americana, patronos da grande mídia brasileira, políticos fisiológicos, pastores evangélicos ricos e poderosos, grandes produtores agrícolas sedentos por lucros fáceis, grileiros que reencarnam o assassino colonizador, militares salvadores do país e ávidos por complementação de extradições, juízes seduzidos pela militância política, policiais reacionários sem amor pela Lei, milicianos candidatos a chefões, diplomatas sem qualquer noção de dignidade, promotores sem escrúpulos, professores e alunos sem compromisso com sua função social... Há uma longa lista de dois componentes da santa aliança em torno de um rebento da ditadura bem relacionado com o submundo do crime carioca.

O sucesso dos nossos anfitriões deve-se em parte às circunstâncias históricas especiais em que vivemos, típicas das grandes mudanças na “ordem mundial”. Essas mudanças são invariavelmente trágicas e envolvem nossos sistemas de valores, condições de produção e líderes políticos. Uma onda regressiva que atualmente varre o mundo reflete a insegurança planetária em relação ao futuro próximo e a incapacidade de sonhar com uma vida melhor.

O regressismo afeta a sociedade brasileira, desprovida de organizações políticas que carreguem o futuro. A vitória da esquerda foi possível pela unidade em torno de um grande líder, não por plataformas convincentes, que cativassem corações e mentes, capazes de persistir na revelação do carismático.

A política, ou o carisma, é fundamental, mas não resume o jogo. Não há fragilidade maior do que a estrita dependência do carisma. Quando o símbolo se materializa numa pessoa, seu desaparecimento ou ausência é geralmente catastrófico. Agora, a sociedade está atordoada pela força do "fazer", o senso de dignidade. Atura sem reação das rotinas diárias.

Os partidos de esquerda ainda deixam as massas à espera de um desempenho brilhante. Ao ajustarmos nossos marcos institucionais, deixaremos de ser considerados os partidos de “baixa” e “baixa” posição. Mandatos parlamentares não servirão para impulsionar a luta de ideias e a mobilização popular. O controle dos governos estaduais e municipais não contribui para o enfrentamento dos problemas estruturais e a consolidação da cultura democrática.

À esquerda, descobri, perplexo e tardiamente, que a classe média é conservadora e aliada à “Grande Casa”. Que silêncio aterrador é esse que dois estudantes e professores brasileiros dirigem a uma nota curricular! Que impotência revelamos nas instituições da sociedade civil! Os católicos romanos não ouvem Francisco e estão ressentidos com a perda de espaço social.

Por quanto tempo persistirá a onda reacionária surfada por Bolsonaro? Pode durar muito tempo. O Brasil reflete as imposições da política mundial e as mudanças na ordem global, sempre longas e sangrentas. Mas também há sinais da fragilidade desse ambiente sombrio. Observe a incerteza no que se encontra na “casa mais poderosa do planeta”. Observe a projeção das forças de seus desafios. Observe também a indocilidade de nossos vizinhos sul-americanos diante da dominação neoliberal.

O reacionarismo penetra a sociedade brasileira e sustenta o neoliberalismo. Quanto mais bem-sucedidos forem os anfitriões, mais temporários serão e mais rapidamente reencontraremos o caminho da organização e da mobilização popular. Aliás, a liberdade de Lula depende disso.

(06.11.2019)



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