Quatro anos após o falecimento de Theotonio dos Santos

Eu não acredito em bruxas, mas elas existem.
Mônica Bruckmann
Eu nasci do nada, masturbação.
Em 27 noites e dias desesperados
Sou um deus
E nada me impede em meu caminho triunfante.
Fui concebido pela masturbação do Nada.
Em 27 noites e dias desesperadores
Eu sou um deus
E nada me impede na minha caminhada triunfal.
Em 1958, com pouco mais de 20 anos, Theotonio dos Santos Júnior (como assinava seus textos na época) declarou em entrevista ao jornal Diário de Minas:
- Jornalista: Você acredita que algum jovem tenha se voltado para a literatura?
- Theotonio Junior: Obviamente, existe, incomoda a "geração beat" nos EUA ou os "alternativos" na Inglaterra, ou os existencialistas do mundo todo. É a atitude mais honesta de um jovem escritor da nossa época. Não é a minha, porque eu não sou escritor.
- J: Você achou mesmo que ia morrer assim, aos 21 anos?
- TS: Não, porque sei que você morrerá aos 67 anos, depois de concluir meu trabalho.
- – Jornalista: Você acredita em uma juventude transgressora na literatura?
- – Theotonio Junior: Claro que existe, veja a Geração Beat nos EUA, os Outsiders na Inglaterra ou os existencialistas no mundo todo. É a atitude mais honesta de um jovem escritor da nossa época. A minha não é assim, porque eu não sou um homem das letras.
- – J: Você já pensou em morrer assim, aos 21 anos?
- – TS: Não, porque sei que vou morrer aos 67 anos, depois de terminar meu trabalho.
Naquela época, Theotonio e outros jovens mineiros faziam parte de uma geração de jovens intelectuais, artistas e escritores conhecida como a "Geração Complemento", nome derivado da revista de arte e crítica literária que publicavam em Belo Horizonte e que moldou uma parte significativa da vida cultural brasileira enraizada na região mineira. Essa geração incluía o escritor Silviano Santiago, os criadores da dança moderna brasileira Klaus e Angel Viana, o crítico de arte Frederico Morais, a pintora Vilma Martins e muitos outros. Nessa época, Ruy Castro, primo de Theotonio, dava seus primeiros passos na literatura, incentivado pelo primo mais velho. .
Parte da fama que o jovem Theotonio alcançou, levando alguns críticos a considerá-lo uma das grandes promessas da poesia brasileira, foi a publicação de seu primeiro livro de poemas.a construção”, que causou um grande impacto devido à sua ousadia e estilo.
Ao se aproximar dos 62 anos, Theotonio lembrou-se daquela entrevista que, obviamente, lhe causou grande preocupação e até certa angústia: E se aquelas palavras juvenis, proferidas com tanta convicção, fossem uma estranha premonição?
Apesar de ser agnóstico e, como todo mineiro (nascido em Minas Gerais), um homem reservado e modesto, ele compartilhou sua angústia com alguns amigos. Isso o levou a buscar o conselho de duas bruxas mexicanas que poderiam ajudá-lo a mudar o curso de um possível destino, ou, como diria García Márquez, uma crônica de uma morte anunciada. E, para piorar a situação, uma morte anunciada pela própria vítima. Isso poderia se tornar não apenas uma tragédia, mas um descuido humilhante!
Em uma de suas muitas viagens acadêmicas ao México, ele marcou um encontro com as bruxas que, por coincidência, possuíam mestrado na arte, o que deu ao paciente uma confiança especial. No fim, tratava-se de bruxas com pós-graduação e comprovada experiência teórica e prática em conhecimentos tradicionais de grande importância não só no México, mas em diversos países da América Latina. Modéstia à parte, as bruxas peruanas também gozam de certo prestígio regional!
Theotonio chegou à sala de consulta cheio de confiança. Foi recebido por duas mulheres com expressões acolhedoras e semblante firme. Elas perguntaram o motivo de sua visita e seu pedido. Ele relatou sua história em detalhes, e as mulheres, sem dizer muito, saíram da pequena sala onde o haviam recebido para avaliar o caso. Após alguns minutos, retornaram com uma proposta: haviam conseguido contatar seus ancestrais e descoberto que, algumas gerações atrás, um dos membros da família havia escolhido uma morte precoce, e que isso havia marcado as gerações seguintes. No entanto, aceitariam uma proposta para renegociar essa tradição. Theotonio ouviu calmamente, como era seu costume, os detalhes da conversa com seus ancestrais e, finalmente, disse que aceitava a proposta sob duas condições: que pudesse viver até os cem anos de idade, mantendo todas as suas faculdades intelectuais e físicas, e que tivesse a oportunidade de morrer como o jornalista brasileiro Barbosa Lima Sobrinho, que morreu aos cem anos enquanto escrevia seu último artigo.
Retiraram-se novamente para levar a proposta aos ancestrais e retornaram otimistas para anunciar que a haviam aceitado e que, a partir daquele momento, Theotonio e as gerações futuras poderiam se beneficiar do pacto. Dito isso, procederam ao ritual de purificação, utilizando ovos de galinha caipira para remover as energias negativas da aura do paciente. Após a sessão, uma das bruxas o aconselhou a não pegar nenhum dos táxis verdes da Cidade do México, pois, caso contrário, seria assaltado.
Theotonio partiu feliz e satisfeito com o novo pacto. Perdido em pensamentos, não me surpreenderia se estivesse até mesmo esboçando a estrutura de seu próximo livro; afinal, ele acabara de ganhar quase quarenta anos a mais de produção intelectual. Pegou o primeiro táxi que encontrou para retornar à Cidade do México. Infelizmente, era um daqueles táxis verdes proibidos pelas bruxas e, infelizmente, ele foi assaltado e praticamente expulso do pequeno Fusca, já que não tinha dinheiro nos bolsos. O assalto previsto apenas reforçou sua crença na eficácia das bruxas mexicanas e na seriedade do pacto que acabara de selar.
Conheci Thetonio em janeiro de 1999, algumas semanas depois daquele incidente, em Havana, durante o primeiro Encontro sobre Globalização e Desenvolvimento, organizado pela Associação Cubana de Economistas por mais de dez anos consecutivos, com o apoio e a presença constante de Fidel Castro nos debates. O evento costumava reunir mais de uma centena de intelectuais do mundo todo para discutir diferentes dimensões da economia global no grande auditório do Hotel Palco, em Havana, diante de uma plateia de quase mil pessoas.
A partir de então, Theotonio nunca mais fez um exame médico de rotina. Ele consultava um médico homeopata que, com algumas pílulas mágicas, regulava sua pressão arterial, fadiga ou qualquer outro problema de saúde que estivesse fora da faixa normal. Ele foi hospitalizado algumas vezes por problemas de saúde sérios: pneumonia, um pico de pressão arterial e talvez uma gripe muito forte, sem muitas consequências duradouras. Mas ele sempre retornava ao seu médico de família, que, com as pílulas mágicas, o livrava de ter que ingerir qualquer coquetel de remédios, tão desagradável para o dia a dia. Como um homeopata clássico, ele prescrevia apenas algumas pílulas brancas incrivelmente poderosas que, dependendo da dosagem, resolviam quase qualquer problema de saúde.
Em maio de 2017, durante exames de rotina solicitados por sua universidade como parte de uma bolsa de pesquisa sênior, Theotonio descobriu que tinha câncer pancreático terminal. Com quimioterapia paliativa, sua expectativa de vida era de seis meses. Theo sobreviveu por nove meses, 50% a mais do que o prognóstico médico mais otimista. Durante suas últimas semanas, aproveitamos os momentos de lucidez proporcionados pela morfina que ele tomava para controlar a dor para finalizar a seleção de textos para sua antologia, que o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) estava preparando para publicação. .
No dia em que terminamos a seleção e o índice da antologia estava completo, comemoramos com uma garrafa de vinho tinto chileno e um jantar peruano preparado especialmente para a ocasião. Ele, que mal comia e mal conseguia reter qualquer líquido, bebeu, comeu e dançou com uma alegria que encheu nossa cozinha de uma estranha esperança, com a sensação de trabalho bem feito (entre sessões de quimioterapia, internações de emergência e longas horas nos corredores do hospital, sempre levávamos o computador ou alguns textos impressos para continuar o trabalho). Foi exatamente durante o Carnaval, como hoje, que esse jantar comemorativo aconteceu.
Uma semana depois, em 27 de fevereiro de 2018, Theotonio "foi enfeitiçado", como diria João Guimarães Rosa. Aos 81 anos, trabalhou quase até o último dia. As bruxas não puderam garantir-lhe cem anos de vida, mas asseguraram que vivesse com saúde e com todas as suas faculdades intelectuais e físicas até o fim.
Bruxas não existem, mas certamente, elas existem...
Mônica Bruckmann
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro de 2022
Theotonius Junior. À Construção. Edições Complementares: Belo Horizonte. 1957
Em abril de 2016, Ruy Castro conversou com o jornalista Eduardo Tristão Girão e declarou, em artigo publicado sob o título "Ruy Castro percorre livrarias da Maleta e se revela um apaixonado bibliófilo": O escritor revela que está procurando o livro de poesia A construção, de Theotônio dos Santos, que, segundo ele, provavelmente não vale mais do que R$ 5. "Ele fazia parte de um movimento cultural aqui no BH nos anos 50 chamado Geração Complemento. Ele é meu primo, mora no Rio, e também não tem esse livro. Perdi o meu, que ele me deu quando eu tinha nove anos, com a seguinte inscrição: 'Para o futuro intelectual, para a sua futura estante, aguardando o seu futuro livro'", conta.
A antologia está disponível no repositório virtual da CLACSO, sob o título: Construindo a Soberania - Uma Interpretação da e para a América Latina. https://www.clacso.org/construir-soberania-una-interpretacion-economica-de-y-para-america-latina/
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