“Cooperação Sul-Sul, uma forma de demonstrar solidariedade entre os povos”
(Transcrição da Coluna de Karina Batthyány)
(Em InfoCLACSO – 23 de junho de 2021)
Gostaria de falar um pouco sobre a Cooperação Sul-Sul e o que chamamos de Programas Sul-Sul. Do que estamos falando quando falamos dessa cooperação ou desses Programas Sul-Sul? Em termos gerais, trata-se da cooperação técnica entre o que chamamos (não gosto do termo, mas é o que se usa) de "países em desenvolvimento", a maioria dos quais está localizada no Sul Global. Daí o nome Cooperação Sul-Sul, que significa cooperação entre essas regiões de países em desenvolvimento. É uma ferramenta usada, obviamente, por Estados, mas também por organizações internacionais, universidades, organizações como a CLACSO, claro, sociedade civil e vários setores em geral, para colaborar, compartilhar conhecimento, compartilhar habilidades e compartilhar iniciativas em áreas específicas de atuação: áreas muito amplas que podem ir da agricultura aos direitos humanos, da urbanização à saúde pública e às mudanças climáticas. Em outras palavras, em todas as áreas onde essa colaboração ou cooperação é necessária. Trata-se, portanto, de um amplo quadro de colaboração entre países do Sul nas áreas política, econômica, social, cultural, ambiental e tecnológica, que envolve pelo menos dois (geralmente mais) desses países localizados no Sul ou erroneamente denominados "em desenvolvimento" ou em desenvolvimento, e que pode assumir diferentes formas: desde a cooperação bilateral, regional, sub-regional e inter-regional.
O que quero enfatizar hoje é que esta Cooperação Sul-Sul é uma forma de demonstrar algo que já discutimos aqui nas colunas do InfoCLACSO: solidariedade, cooperação e interdependência entre os povos e países do Sul Global. Seu propósito é contribuir para o bem-estar das populações desses países e para a consecução de metas de desenvolvimento, muitas das quais são internacionalmente acordadas, como a conhecida Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, promovida pelas Nações Unidas. Esta questão, que sempre foi importante, é mais crucial do que nunca no contexto desta pandemia que já dura um ano e meio. Porque, como discutimos em outra coluna, as soluções, as possíveis saídas para esta crise particular que nos afeta, não podem ser consideradas individualmente, seja no nível das pessoas ou no nível dos países. Portanto, este mecanismo de Cooperação Sul-Sul assume uma importância particular. Quero reiterar: o que se destaca é a solidariedade, a cooperação e a interdependência desses países, enquanto se esforçam para se fortalecerem mutuamente e reduzirem as desigualdades que tipicamente afetam os países do Sul Global. E também as lições aprendidas, por exemplo, como superar crises, especificamente a atual crise sanitária no contexto do coronavírus. Este instrumento é mais importante do que nunca hoje, mas não nos esqueçamos de alguns exemplos do passado envolvendo países latino-americanos, como o apoio de Cuba no combate ao Ebola na África Ocidental, ou a experiência do México na diversificação de produtos à base de milho para melhorar a nutrição e a saúde das populações africanas, particularmente no Quênia, ou o conhecimento de estratégias de redução da fome que a Colômbia compartilha com outros países mesoamericanos, e as lições que o Chile compartilhou com os países caribenhos sobre rotulagem de alimentos para prevenir a obesidade. Estou mencionando alguns dos exemplos que costumam ser destacados em relatórios, principalmente os das Nações Unidas, sobre este tema.
Vale ressaltar também que esses países do Sul Global contribuíram com mais da metade do crescimento global nos últimos anos. E esse conhecimento intra-Sul ou Sul-Sul está mais elevado do que nunca, representando mais de um quarto do comércio mundial; esse comércio entre os países do Sul Global está mais intenso do que nunca e, como mencionei, representa mais de um quarto de todo o comércio mundial.
O que isso tem a ver com o CLACSO? Tem muito a ver, porque o CLACSO possui um Programa de Desenvolvimento Sul-Sul e Cooperação Sul-Sul nas diversas áreas de competência do nosso Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais. Ou seja, em termos de formação, pesquisa, avaliação científica, publicações e comunicação, como o que estamos fazendo agora aqui no InfoCLACSO. Temos muitos exemplos que poderíamos mencionar, particularmente com nossos colegas do Conselho Africano de Ciências Sociais ou do Conselho Árabe de Ciências Sociais. E também, quero enfatizar, que na quinta-feira, 24 de junho, assinamos um acordo de trabalho com a Academia Chinesa de Ciências Sociais para continuar avançando nessa lógica de Cooperação Sul-Sul, o que se soma à trajetória de trabalho e reflexão que o CLACSO tem no que se chama, entre outras coisas, em uma especialização, de epistemologias do Sul: a maneira de analisar, conceber e olhar para o mundo, seus problemas, sua realidade, e construir alternativas a partir desse Sul Global e dentro da estrutura dessas estratégias de cooperação. Por isso quis trazer este assunto à tona aqui no InfoCLACSO hoje. E, claro, também quero convidar todos a se juntarem a nós, se desejarem, para o evento que estamos lançando no âmbito deste acordo de diálogo sobre desenvolvimento entre a China e a América Latina e o Caribe.
Muito interessante, Karina… Você incluiu tantas coisas no âmbito da Cooperação Sul-Sul que eu diria que é uma forma de os países, neste caso os acadêmicos, se posicionarem e enxergarem o mundo. Quando estamos tão acostumados com a lógica centralista dos países centrais ou mais poderosos, que olham para os países menores de uma forma um tanto pejorativa, essa lógica Sul-Sul oferece uma perspectiva e uma visão de mundo diferentes…
Por isso falamos de epistemologias do Sul, que são uma forma de olhar para o mundo, para a realidade e, sobretudo, para a construção de alternativas a partir deste lugar, do Sul ou do Sul Global, tentando romper com as tradições epistemológicas e metodológicas que muitas vezes estiveram muito presentes no campo das ciências sociais, com perspectivas colonialistas na geração de conhecimento e na análise da realidade. E é por isso que, na CLACSO, estamos empenhados em fortalecer ainda mais essa Cooperação Sul-Sul. Sempre fizemos isso, mas neste ano e meio de pandemia, ficou mais claro do que nunca que este é o caminho: solidariedade, cooperação e interdependência entre os países do Sul na busca de alternativas e soluções para o período pós-pandemia, ou como quer que o chamemos.
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