Brasil: triunfaram a democracia, a soberania e a justiça

O Conselho Latino-Americano e Caribenho de Ciências Sociais (CLACSO) congratula-se com o resultado das recentes eleições presidenciais no Brasil, felicita o presidente reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva, e, de modo muito especial, parabeniza e celebra com o povo brasileiro.
O que aconteceu no último domingo, 25 de outubro de 2026, foi uma grande vitória da democracia. Num contexto de polarização política induzida — que parece ter se tornado condição necessária para o avanço das direitas extremas em diferentes partes do mundo —, o povo brasileiro deu sentido à participação, ao respeito às regras democráticas e à possibilidade de definir, coletivamente, o destino do país. Sua mobilização sem precedentes — que merece nosso respeito! — conjugou, entre outros, dois eixos que merecem destaque: a simultaneidade entre as ruas e as redes digitais e o processo de descentralização das ações, que se fez sentir tanto nas grandes capitais e em seus espaços e lugares icônicos, quanto nas periferias. Essa convergência tornou-se uma potente estratégia de consolidação e ampliação da luta e de alcance da vitória.
O Brasil tornou-se uma referência política para todas as pessoas que defendem a democracia diante daqueles que, ao alimentar o medo, a mentira, a violência, a exclusão e a desigualdade, tentam enfraquecer suas instituições e restringir direitos historicamente conquistados.
O processo eleitoral brasileiro evidenciou que a democracia exige defesa permanente e não deve ser tomada como algo assegurado. Seria temerário tratá-la como garantida em tempos de emergência e avanço de projeto e práticas neofascistas, bem como de redes digitais, algoritmos e inteligência artificial. A democracia, afinal, não se limita às urnas: precisa de salvaguardas. Requer canais institucionalizados de participação capazes de promover a integração social, em toda sua diversidade, e garantir mecanismos de transparência e prestação de contas compatíveis com os princípios éticos e com os recursos tecnológicos de que dispõem nossas sociedades.
A liderança de Lula confere significado especial à sua quarta eleição como presidente da República. Ela representa a aposta do povo brasileiro na ampliação da proteção social, na redução das desigualdades, na defesa da soberania nacional, no diálogo e na responsabilidade e capacidade de responder às demandas de uma sociedade diversa. Trata-se de um mandato democrático que pressupõe desdobramentos concretos voltados aos agrupamentos mais precarizados, exigência que se expressou na significativa presença de jovens e pessoas idosas, de organizações antirracistas e de coletivos em defesa da equidade de gênero e sexualidade. Depois do resultado do primeiro turno, não houve resignação ou mesmo submissão à derrota: partimos para a luta. Agora, diante do resultado do segundo e definitivo turno, o objetivo é avançar.
A vitória de Lula nos convida a repensar nossos países em um contexto internacional em transformação. Esse resultado nos recorda que, independentemente de quem governe, torna-se necessário desenvolver capacidades científicas e tecnológicas que permitam colocar nossos recursos a serviço do bem-estar coletivo e do “buen vivir”. É preciso continuar fortalecendo a educação, a ciência, a tecnologia e a inovação; promover o trabalho digno e a produção de conhecimento; e reduzir as dependências que limitam a autonomia de nossas sociedades e das coletividades que delas fazem parte. Essa responsabilidade inclui proteger a biodiversidade, enfrentar a emergência do clima e implementar a justiça climática, e reconhecer os direitos dos considerados outros, das diversidades e das dissidências. Exige, também, impulsionar transformações produtivas capazes de modificar as estruturas de produção e distribuição da riqueza. Não existe desenvolvimento quando seus resultados se concentram em poucos ou quando seus custos sociais e ambientais recaem sobre os mais vulneráveis: que privilégios irresponsáveis e inadmissíveis, sim, sejam cortados, mas nunca direitos sociais conquistados.
Cabe ainda ressaltar que a importância dessa eleição é também geopolítica. Por sua dimensão territorial, econômica e política, o Brasil influencia fortemente as potencialidades de integração regional, a cooperação com outras regiões do Sul Global, as negociações climáticas e a capacidade da América Latina de se inserir em condições mais equitativas no sistema internacional. Como bem-dito por Lula, “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. A América Latina e o Caribe, igualmente, não devem aceitar uma posição subordinada. A cooperação regional, a produção autônoma de conhecimento e a defesa dos bens públicos são condições essenciais para o enfrentamento dos desafios econômicos, tecnológicos, ambientais e democráticos dos novos tempos.
Para finalizar, uma observação: a fuga de Flávio Bolsonaro, após a derrota nas urnas, é a confissão pública de que a extrema-direita não respeita a democracia. Derrotado pelo voto popular, saiu “clandestinamente” do Brasil para viver nos EUA, assumir-se como “exilado” e de lá montar seu palanque. Não se trata de desespero: é método de quem sempre deslegitimou as urnas e atacou as instituições. Quem não aceita perder não merece governar, e quem foge deve ser tratado como foragido, não como vítima. A fuga é a prova de que o projeto bolsonarista só reconhece a democracia quando ela serve aos seus interesses. É preciso responsabilizar os golpistas onde estiverem, sem anistia, sem leniência e sem impunidade. A democracia não se defende com tolerância com aqueles que a despreza; defende-se com justiça e memória.
Desde a CLACSO, reafirmamos nosso compromisso incondicional com a democracia, os direitos humanos, a educação pública, a liberdade acadêmica, a ciência aberta e a produção de conhecimento crítico. As ciências sociais têm uma responsabilidade gigantesca neste momento histórico. Torna-se necessário compreender as causas da polarização, analisar as transformações tecnológicas do poder e os perigos que elas encerram e contribuir para o debate público com rigor e responsabilidade.
Comitê Diretivo do CLACSO
Santiago do Chile em 27 de outubro